Do talento como manifestação política; Por Paulo Elpídio

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A Morte de Marat
A Morte de Marat, pintado em 1793 pelo francês Jacques-Louis David.

“A democracia é uma forma de governo baseada na livre discussão, que só poderá ser alcançada se as pessoas pararem de falar.”

Clement Attlee

O sucesso alcançado por um artista com a sua arte não lhe confere mandato para falar em nome das plateias que diverte, anima e distrai.

Aos escritores, poetas e homens de pensamento, entretanto, embora lhes falte o mandato concedido pelo povo, sobram-lhes as palavras e a razão para expressar os anseios e as inquietações de seus contemporâneos — nada, todavia, que ultrapasse as limitações de um talento sempre sujeito à dúvida.

Em nenhum caso, a fama, por si só, serve para justificar ou legitimar uma voz como expressão de qualquer forma de representação política.

Uma plateia, ou um arraial de performers à moda de Woodstock, pode surgir como manifestação lúdica e musical — uma catarse coletiva, e nada mais. O carnaval, o futebol, uma escola de samba em seus torneios e ritmos, ou o embate de torcidas em desforço físico, não são movidos por impulsos políticos, tampouco ideológicos. São manifestações guerreiras pela conquista de atenção e respeito, travadas nos campos de futebol e nos espaços públicos, mas nunca configuram episódios políticos. As insurreições, sim — ideias e armas em punho —, foram, até os limites em que lhes tolheram os avanços esperados, eventos políticos.

Na democracia, sejam quais forem suas variantes, é preciso que as vontades se expressem pelas formas consagradas. A democracia não se reduz a um “estado de espírito”. Ela é um estado de luta — uma insurreição permanente, feita de defesa e ataque contra os que pretendem aprisioná-la em propósitos mínimos e aspirações menores.

L’Ami du Peuple — assim Marat chamou seu jornal, criado à luz das chamas e da guilhotina em 1789 — já lembrava o povo desde o título. Não por ter exacerbado os ânimos revolucionários dos sans-culottes, mas por ter revelado quão poderosos são os inimigos da democracia.

A Convenção, o Diretório, o Consulado, o Império, Robespierre, a guilhotina e a Restauração foram atos e imagens políticos — criações do povo — até que a nobreza e a burguesia voltaram a falar em seu nome.

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

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