O domingo que passou, penúltimo do ano, foi em grande parte dedicado, nas redes sociais, à postagens de sujeitos da (extrema) direita incitando boicote à empresa de sandálias Havaianas.
O ato buscava responder ao que foi entendido como um desrespeito da empresa à “direita“, por conta de uma peça publicitária encenada pela atriz Fernanda Torres.
Nela, a atriz diz o seguinte:
“Desculpa, mas eu não quero que você comece 2026 com o pé direito. Não, não é nada contra a sorte, mas vamos combinar: sorte não depende de você, depende… depende de sorte. O que eu desejo é que você comece o Ano-Novo com os dois pés. Os dois pés na porta, os dois pés na estrada, os dois pés na jaca, os dois pés onde você quiser. Vai com tudo, de corpo e alma, da cabeça aos pés”.

O texto, por óbvio, refere-se ao ato mágico-supersticioso que leva alguns a “entrarem com pé direito” em novos ciclos, ou novos lugares; algo que muitos costumam fazer na festividade de reveillon. Como se percebe, Fernanda faz um jogo com o ditado-ato mágico, convidando o telespectador-consumidor a entrar com “os dois”, de modo firme, com as sandálias Havaianas.
Nada há no texto que fale da direita enquanto espectro político.
Aliás, nem devia incitar reação alguma desses sujeitos, uma vez que “entrar com pé direito” no ano novo é ato supersticioso, mágico, o que não condiz com quem se diz arauto do Evangelho de Cristo. Ou seriam, eles, de uma direita supersticiosa?
(Lembrei-me, por óbvio, de um tal marxismo esotérico que já vimos por aqui).
Pois bem, a extrema-direita viu na peça publicitária uma oportunidade para polemizar, viralizar, monetizar e lucrar; e, de cara, realizar o devido enquadramento, agendando o debate nas redes no domingo e pelos dias seguintes.
Um sem número e políticos e artistas, todos identificados como bolsonaristas, fizeram gravar vídeos em que simulam jogar as sandálias em latas de lixo, alguns outros cortando-as; outros foram além: depois de materializar o seu boicote, ainda sugeriram a aquisição da “concorrente” Ipanema. Trata-se de um ato patrocinado disfarçado de boicote?
Em terras alencarinas, a ânsia pelos likes que o episódio poderia lhe trazer levou um vereador de Fortaleza a quase se queimar, ao atear fogo em supostos exemplares que pertenceriam aos membros de sua família.
Além de observar uma certa (considerável?) falta de capacidade hermenêutica (intencional?),
O episódio se insere em mais um dos cancelamentos que a extrema-direita opera a cada final de ano.
Já tivemos Netflix, Porta dos Fundos, Ivete Sangalo (Seara), JBS dentre outros.
Bem mais do que se preocupar em preparar o espírito para o natalício do Cristo a quem dizem-se seguidores e adoradores, esses sujeitos buscam alvos para o cancelamento e, por óbvio, a viralização – que, além de visibilidade, confere alguns (muitos) trocados a quem sabe monetizar a ira.
Estamos diante de mais um boníssimo exemplo de como se manipulam massas, mecanismo que se aprimora a cada avanço tecnológico.







