Matheus 3, versículo 17 ou a herança do bolsonarismo

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O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) achou por bem fazer com que seu pai escrevesse, e ele publicizasse, uma carta em que, à caminho da sala de cirurgia, dissesse em alto e bom som que era ele, Flávio, o indicado de Jair Bolsonaro (PL) à corrida presidencial do ano que vem.

Sem que a decisão fosse tomada de modo partidário, via pronunciamento do PL, ou por meio de tratativas com lideranças de partidos que, a preço de hoje, formam o núcleo de sustentação do bolsonarismo nos estados (além do PL, siglas como PP, REP, UNIÃO, PSD dentre outros), a “carta” repetiu modus operandi do “anúncio” vocalizado por Flávio a alguns dias: aqui, “meu pai” mandou dizer que eu era o candidato, disse Flavio; na carta, Jair crava: “tomo a decisão de indicar Flávio Bolsonaro como pré-candidato à presidência da República em 2026″.

Decisão unilateral e pessoal do “mito”.

A carta testamento de Jair, publicizada nesta quinta-feira, além de dar mostras da pouca atenção que o “mito” e seus familiares parecem estar dando ao que alardeiam como quadro grave de saúde do ex-presidente (o que mereceu até foto publicada nas redes pelo seu outro filho, o vereador Carlos Bolsonaro [PL-RJ]), aponta para o que parece ser a razão maior das preocupações do clã: a sobrevivência daquilo que consideram como legado político do ex-presidente, que cumpre pena por crimes contra o estado democrático de direito.

Além de buscar responder aos que duvidavam da veracidade da escolha de Flávio por Bolsonaro, ou que avaliaram a escolha como precipitada e equivocada, como é o caso do pastor Silas Malafaia (que chegou a gravar um vídeo há alguns dias, prometendo alguns outros, para mostrar o “erro” da escolha “de sangue”, como se a eleição se tratasse de uma herança biológica), a carta, escrita à mão, contém componente que sugere ação religiosa de um pai que sacrifica seu filho em nome da nação, bem ao gosto da retórica populista de nosso tempo:

“[…] Entrego o que há de mais importante na vida de um pai: o próprio filho, para resgatar o nosso Brasil. Trata-se de uma decisão consciente, legítima e amparada no desejo de preservar a representação daqueles que confiaram em mim […]”.

O trecho parece ressoar a cena do batismo de Cristo por João Batista, narrada na passagem que dá título a esse texto. Nela se escuta a voz de Deus pai a dizer: “eis meu filho amado, em quem ponho minha afeição”.

Bolsonaro faz o mesmo: eis Flávio, meu filho, que entrego ao sacrifício por ter minha afeição, minha escolha e minha confiança, para defender meu legado. 

A carta, escrita à mão, mereceu até vídeo criado por IA, e compartilhado pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), simulando o momento da escrita por Bolsonaro. Imagine, o/a leitor/a, o que acontecerá nas eleições com o uso indiscriminado dessas técnicas.

Do alto de seu suposto sacrifício pelo Brasil (um solvente retórico para esconder suas pretensões de sobrevivência e até de indulto, numa eventual vitória de Flávio), Bolsonaro simula, em linguagem religiosa, a entrega de seu primogênito, o zero um, para “resgatar” o país.

De quê? Para quê?

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