As três guerras púnicas; Por Angela Barros Leal

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Converso com um sério e honrado senhor que sabe tudo sobre as Guerras Púnicas. Todas as três Guerras Púnicas, a respeito das quais eu tinha vivido, até aquele momento, na mais pura ignorância. As Guerras Púnicas – ele insiste, como se eu estivesse brevemente esquecida delas, em meio a tantas outras guerras mais presentes. Ah, sim – suspiro eu, com fingido alheamento, folheando outra vez meus arquivos mentais em busca de alguma referência relativa aos ditos combates.

Pudesse eu, naquele momento, sacar meu celular de dentro das profundezas da bolsa, acessar o google, digitar as três palavras esclarecedoras, claro que assim teria feito. No entanto, era impossível fazer isso com o olhar firme dele sobre mim, vasculhando minha expressão desarmada, suspeitando das profundezas ainda mais acentuadas da minha ignorância.

O silêncio possibilitou a ele ajustar as costas na cadeira, puxar uma folha de papel em branco para perto de si, e desenhar, com um marcador de ponta grossa, em azul escuro, três traços verticais. As três guerras, pelo que entendi cabisbaixa, envergonhada com a estreiteza do meu conhecimento.

Pode ser que eu tivesse ouvido algo sobre tais batalhas nas páginas de algum livro de História Geral, folheado por uma das freiras do colégio. Pode ser que na minha carteira de madeira, sempre na primeira fila, devido à ordem alfabética em que as alunas eram posicionadas, eu tenha me detido, brevemente, em uma página com ilustrações mostrando um dos três combates, ou mesmo os três. Mas nada permaneceu na memória.

Os antepassados de Aníbal fundaram Cartago – diz o senhor. Cartago! – repito, conjurando a imagem de muralhas de pedra, atrás das quais vivia uma poderosa e vibrante sociedade. Os cartagineses não eram guerreiros – ele explica. Se destacavam pela atuação comercial nas terras fronteiriças com o mar Mediterrâneo, com o mar Egeu, levando e trazendo mercadorias no bojo de seus barcos, construídos a partir do tronco dos cedros nascidos nas montanhas do Líbano.

Os romanos ambicionavam o controle desses mares, os únicos que a humanidade anterior a Cristo conhecia. E esse foi o estopim para a primeira das três guerras, liderada por Aníbal, pai de Amílcar.

Uma faísca de reconhecimento acende na minha lembrança. Um dos tios maternos da minha mãe tinha dois filhos, chamados Aníbal e Amílcar. Então era daí que vinham os nomes desses primos! Uma mostra da familiaridade das gerações anteriores com tais guerras, a ponto de batizarem bebês em homenagem aos guerreiros cartagineses!

Aníbal levou Amílcar, com 9 anos de idade, a acompanhar uma das batalhas, para que aprendesse, desde pequeno, a odiar Roma – prossegue o senhor.

Que tipo de pai seria esse, eu penso, com a mentalidade de hoje, expondo uma criança ao choque das espadas, ao estalar das lanças atingindo metais, ao fragor do combate, aos gritos dos feridos, à visão dos mortos, aos charcos de sangue. 

Roma é a culpada de tudo isso! – deve ter gritado o pai aos ouvidos do menino. Isso é o que Roma faz contra nós! 

A lição serviu. Na sua vez, na segunda guerra, o ódio a Roma ainda atravessado na sua garganta, Amílcar atravessaria a Espanha, cruzaria os Alpes com seu exército, destruiria legiões usando o pavor causado pelo ataque cerrado de seus 37 elefantes. Mas não entraria em Roma e seria derrotado pelo general Cipião Africano.

Os elefantes de Amílcar. Inspirando o pânico. Pisoteando os caídos. Desordenando as formações de combate. Dava um filme! – quero dizer a ele, mas não digo. Talvez até exista um filme sobre o tema, ou mais de um. Outro desconhecimento meu. Outra demonstração de superficialidade que nem ouso externar.

Na terceira guerra, Roma exterminou Cartago – informa o senhor. Delenda est Carthago, era o grito de guerra, o comando para a destruição total da cidade. O solo foi recoberto de sal para que nada mais ali nascesse.

O senhor não me dá mais atenção. Uma pessoa chega para pegá-lo e ele se despede. Tateio o fundo da bolsa e encontro meu celular. Cartago hoje repousa em ruínas nas proximidades de Túnis, capital da Tunísia. A combativa cidade transformou-se em point de visitação turística. Assim renascem as extintas civilizações.


Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

 

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