Em 1975 fiz minha primeira viagem a Berlim, saindo de Colônia em companhia de algumas pessoas do Grupo Coordenação Brasil da Anistia Internacional para nos reunirmos com participantes do encontro de uma Igreja Evangélica, que ocorria anualmente naquela cidade.
Para chegar a Berlim por terra àquela época, tivemos que atravessar parte da RDA-Alemanha Oriental por um corredor de cerca de 200 Km de extensão. Ao longo do percurso havia postos de gasolina, lanchonetes e restaurantes administrados pela RDA, onde eram prestados serviços aos que por ali trafegavam. Nas paradas que fizemos, abordei pessoas que nos atendiam, apresentando-me como brasileiro perseguido por duas ditaduras latino-americanas, interessado em saber como era aquele país e como era viver nele. Assim que eu dizia isso, meus interlocutores se calavam. Não adiantava insistir. Nada de informações. Nada de opiniões. Respostas somente a perguntas relacionadas aos serviços que prestavam. Qual era a razão daquele comportamento? Suspeita de que eu fosse um espião? Medo? De que?
O mesmo ocorreu ao visitar Berlim Oriental. Naquele tempo, quem estivesse em Berlim Ocidental podia visitar o outro lado da cidade durante o dia, bastando apresentar o passaporte em um posto de controle, na entrada e na saída. Chegando ali, fiz a algumas pessoas as mesmas perguntas que eu fizera no corredor de acesso a Berlim Ocidental. Igualmente em vão. Nos jornais, também não encontrei respostas ao que procurava. Compreendi que se eu quisesse conhecer algo daquela realidade, teria que ser apenas com os olhos. E tudo o que pude ver me pareceu bem ordenado, aparentando um bom funcionamento da vida urbana; o trânsito fluía bem, com predominância de transportes coletivos sobre individuais; os prédios tinham aspecto mais modesto dos que os de Berlim Ocidental, mas a quantidade de museus e de edifícios públicos era maior. Não percebi sinais de pobreza, nem de ostentação. As pessoas vestiam-se de modo discreto, com roupas de boa aparência. A impressão que me ficou, foi de uma cidade com equipamentos urbanos de padrão mediano, tranquila, habitada por uma gente que não se sentia à vontade para falar do lugar em que morava.
O retorno a Berlim Ocidental impôs-me recordações, comparações e reflexões. Lembrei-me de ter lido sobre um acordo feito logo após o término da Segunda Guerra Mundial, dividindo a cidade em quatro zonas, cada uma ocupada por uma das potências vencedoras: União Soviética, EUA, Reino Unido e França. Começada a Guerra Fria, aquele acordo fora rompido, sendo a cidade partida artificialmente em duas, uma sob controle soviético e a outra sob o das três nações ocidentais.
Com três décadas de caminhos econômicos distintos, as duas partes da cidade apresentavam resultados diferentes. Na ocidental, predominavam os sinais de uma reconstrução mais rápida e eficaz da destruição feita pela guerra, comparando-se com o mesmo processo na parte oriental. Outras manifestações de poder econômico visíveis nos equipamentos urbanos eram também favoráveis a Berlim Ocidental. Em uma análise comparativa daqueles fatos, tem que ser considerado o volume muito superior de capital externo recebido pela parte ocidental da cidade.
Evidentemente que, devido ao pouco tempo disponível, não tive como fazer comparações entre a qualidade de vida dos habitantes de um lado e do outro. Mas uma diferença saltava aos olhos e entrava pelos ouvidos: o borbulhar do embate de ideias. Neste aspecto, não havia qualquer dúvida. No lado ocidental era a efervescência, no outro a geleira. Com a derrota do nazismo e a divisão do país, a parte oriental iniciara a experiência de um novo sistema econômico sob um regime político autoritário, enquanto a ocidental retomara o caminho iniciado havia quase dois séculos, reforçado, então, pela injeção de capital do Plano Marshal dos EUA e baseado em um processo político democrático.
A democratização da Alemanha Ocidental foi dificultada, parcialmente, quando o governo dos EUA, devido à Guerra Fria, interrompeu o processo de desnazificação que ele próprio iniciara, mas graças a lideranças alemãs que tiraram lições dos prejuízos causados ao país pelos regimes ditatoriais, foi criado um estado representativo de todas as correntes democráticas, capaz de resistir a forças inimigas da democracia. No entanto, em que pese os esforços feitos, o estado democrático nunca deixou de ser assediado por grupos nazistas minoritários, que foram mantidos longe do governo, mas não extirpados politicamente, por conta da desnazificação incompleta.
Pensando hoje nas dificuldades de se evitar a contaminação de pessoas por ideias extremistas, lembrei-me de um fato ocorrido em 1978, durante meu internato no Hospital das Clínicas da Universidade de Colônia. Ao fazer o exame físico de um senhor que havia lutado na Segunda Guerra, à medida que eu lhe perguntava sobre as causas de algumas cicatrizes que eu ia encontrando, ele ia respondendo: “esta foi de um tiro que levei na Ucrânia, esta outra de um ferimento de baioneta na Albânia, esta daí…” e arrematou suas explicações dizendo que tudo acontecera quando era soldado de uma unidade das Waffen SS, tropas do partido nazista, afamadas por sua combatividade e crueldade. Perguntei-lhe, então, se alistara-se por admiração a Hitler, pois os integrantes das SS tinham que fazer um juramento de lealdade pessoal ao ditador. Respondeu-me com um sonoro não, esclarecendo que o motivo fora seu encantamento com um desfile de motos tripuladas por membros daquela corporação que, aos 17 anos de idade, ele presenciara em sua cidade natal. Sua última frase sobre o assunto: “Doutor, eu sonhava pilotar uma moto daquelas”.
Àquela época, distanciados por mais de um ano, dois fatos incendiaram o debate político na República Federal da Alemanha a respeito do socialismo e do nazismo: a cassação da cidadania do compositor e cantor Wolf Bierman pela Alemanha Oriental e a exibição da minissérie estadunidense Holocausto pelas televisões ocidentais.
Bierman, que fazia alguns shows na Alemanha Ocidental, foi punido por ter criticado a falta de liberdade na Alemanha Oriental. Este cantor e compositor, que alguns anos depois assumiria posições consideradas direitistas pelos padrões de esquerda, nas suas canções daquela época criticava o consumismo ocidental e todas as ditaduras, dedicando várias composições à denúncia da opressão na América Latina e na Espanha franquista. Guardo até hoje a letra da linda canção Balada do Cameraman, em que ele narra com grande realismo o assassinato de um repórter que registrava uma ação repressiva de tropas de Pinochet e que, ao ser baleado propositalmente, filmou a própria morte. A canção termina com Wolf Bierman gritando em espanhol: “Viva la Unidad Popular”, suporte político do governo democrático de Salvador Allende, derrubado pelo golpe militar ocorrido no Chile em 73.
Por outro lado, a minissérie da NBC, Holocausto, desnudando o horror das ações nazistas contra o povo judeu, chocou os alemães ocidentais. A discussão sobre o passado nazista tornou-se assunto do cotidiano. O que antes era evitado por pessoas mais idosas e tratado mais por jovens, passou a ser debatido por todos, em toda parte.
A Alemanha, por já ter vivenciado o nazismo e ter à época uma experiência do que se proclamava socialismo em parte de seu território, dois modelos de governança da sociedade surgidos no Século XX, revelou-se o laboratório mais bem equipado para investigá-los. E nesta investigação evidenciou-se a relevância da questão democrática para a construção de sociedades que buscam o bem-estar para todos.
Para mim, que no passado fora algumas vezes condescendente com justificativas de alguns regimes ditatoriais disfarçados, compreendi que ditaduras não podem ser aceitas sob qualquer pretexto ou sob qualquer forma, mesmo dissimulada. Percebi que os sistemas políticos baseados em pensamento único, cedo ou tarde voltam-se contra os interesses da sociedade, no todo ou em parte.
Na próxima historieta, conto a tragédia da Dora, estudante de medicina refugiada em Berlim e falo sobre a Semana Brasil realizada em Colônia que, entre outras atrações, teve as participações do Brizola e do Fagner.
João de Paula Monteiro Ferreira, 79 anos, ex-presidente do DCE da UFC, ex-diretor da UNE, médico especialista em psicoterapia e psicologia organizacional, formado pela Medizinische Fakultæt der Universitæt zu Kœln, República Federal da Alemanha.






