Fortaleza não havia conhecido carnavais festejados tão tristemente quanto os de 1942 e 1943. O de 1942 foi celebrado de 15 a 17 de fevereiro de forma “um pouco desanimada”, como ameniza o historiador e pesquisador Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez, em sua indispensável Cronologia ilustrada de Fortaleza: Roteiro para um turismo histórico e cultural.
Se foi desanimado em 1942, “desanimadíssimo” foi o carnaval de 1943, ainda segundo Nirez. A data da festa seria de 7 a 9 de março. Dessa vez, nada de maracatu, nada de confetes e serpentinas, nada de blocos carnavalescos nos clubes sociais, nem de Rei Momo e sua Rainha, muito menos do corso desfilando pelas avenidas Duque de Caxias ou Dom Manuel.
A realidade começava a rasgar a fantasia naquele fevereiro de 1942. O jornal carioca Gazeta de Notícias traçava o cronograma a ser seguido pelas capitais nordestinas em relação aos preparativos para um Brasil prestes a entrar em guerra: após o Carnaval, comunicavam os comandantes militares, seriam realizados os primeiros exercícios de defesa antiaérea, começando com o blecaute geral.
Recife, Natal, Fortaleza, situavam-se em posição geográfica estratégica para ataques alemães, asseguravam as autoridades supremas. Em sendo assim, todas as noites, durante 20 minutos, tais cidades ficariam às escuras, sendo inclusive proibida a circulação de qualquer veículo.
Era de desanimar qualquer folião.
Na capital cearense, com pouco mais de 186 mil habitantes, desligaram-se as lâmpadas das ruas. Os vidros das janelas das residências foram pintados de preto, com fuligem de lamparinas, ou vedados com papel e papelão. Os pontos de iluminação interna precisavam ser recobertos. Nenhum feixe de luz deveria ser avistado dos aviões inimigos que viessem a sobrevoar e bombardear a cidade, ou dos traiçoeiros submarinos que ameaçavam afundar os navios em trânsito, ou ancorados nos verdes mares.
Por qual motivo se preocupariam os adversários em atacar a nossa Terra da Luz, ainda mais durante a noite, essa deve ter sido a pergunta na cabeça de muitos. No entanto, não convinha discutir: ordens existiam para serem cumpridas.
Tais providências já estavam sendo tomadas antes que o Brasil entrasse de fato em guerra contra o Eixo, o que só iria acontecer em agosto de 1942. A tempo de prejudicar igualmente os festejos natalinos daquele ano, abalados no dia 15 de dezembro, quando se impôs o primeiro blecaute total, cancelando inclusive a tradicional Missa do Galo. As restrições não faziam diferença entre empolgação popular e espírito de religiosidade.
Já no ano seguinte, 1943, o golpe de morte no Carnaval foi a realização do mais importante exercício de blecaute realizado no Ceará, agendado a propósito para o domingo de Carnaval, dia 7 de março. Ficava evidente que não se estava em tempo de festas. A tristeza deve ter atingido em cheio o coração dos foliões fortalezenses, sem samba, sem alegria, sem paz.
No dia marcado, conta o arquiteto e historiador José Henrique de Almeida Braga, no seu livro Salto sobre o lago, realizou-se mais um exercício de bombardeio aéreo sobre a cidade, dessa vez simulando o uso de agente químicos lançado pelos aviões.
No trecho entre a atual Av. Dom Manuel, ali onde encontra com a Av. Heráclito Graça, e de lá até a orla, seguindo ao longo de uma região que demarcava os limites da Fortaleza original com a nova Fortaleza, que começava a se estender para o Leste –, justamente no trecho que coincidia com o percurso costumeiro do corso carnavalesco, o grito de guerra se fez ouvir mais alto.
“Na ocasião” – ele escreve –, “foi demonstrada a utilização de máscaras contra gases e os procedimentos médicos necessários.” Ao invés de máscaras carnavalescas, as máscaras de proteção contra o sopro maléfico dos gases domesticados para uso bélico.
“A cidade assistirá desta vez ao mais importante exercício dos já realizados” – repercutiu o jornal carioca Gazeta de Notícias – “preparado para proporcionar a Fortaleza um exercício completo sob todos os aspectos”, enfatizava, e mostrava o tamanho do sacrifício: “Quando, em outras partes, têm início os festejos carnavalescos, o Ceará bem demonstra estar perfeitamente integrado no espírito de defesa do Continente.”
Então, se hoje nos parece que o Carnaval não é mais o mesmo, talvez seja o caso de dar graças. E isso porque preferi nem lembrar dos carnavais da pandemia…

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







