STF com a faca na mão para cortar na própria carne

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O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, deu um passo que pode marcar um ponto de inflexão no debate sobre os chamados “penduricalhos” do serviço público. Nesta quinta-feira (26), ele solicitou formalmente aos Poderes Executivo e Legislativo a indicação de representantes para compor uma comissão técnica encarregada de propor um regime de transição para o pagamento de verbas classificadas como indenizatórias.

O grupo terá prazo de 30 dias para apresentar uma proposta concreta. A iniciativa decorre de reuniões realizadas ao longo da semana entre a Presidência do STF e representantes dos demais Poderes, sinalizando que a Corte busca uma solução institucional coordenada — e não uma decisão isolada, de gabinete.

Os ofícios foram encaminhados ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad; ao ministro da Casa Civil, Rui Costa; à ministra da Gestão e da Inovação, Esther Dweck; ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre; e ao presidente da Câmara, Hugo Motta. A composição do grupo, pelo Judiciário, já foi definida: o secretário-geral do STF, Roberto Dalledone Machado Filho, e a secretária-geral do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Clara Motta.

A movimentação tem como pano de fundo decisões recentes proferidas na Reclamação (Rcl) 88319 e na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 6606, relatadas pelos ministros Flávio Dino e Gilmar Mendes. Nessas ações, o Supremo suspendeu o pagamento de verbas classificadas como indenizatórias que, na prática, elevam a remuneração de membros do Judiciário e permitem a ultrapassagem do teto constitucional.

O desgaste da “farra dos penduricalhos”

Nos últimos anos, a multiplicação de auxílios, gratificações e verbas indenizatórias — muitas delas criadas por atos administrativos ou leis estaduais — passou a ser vista como um drible institucional ao teto remuneratório previsto no artigo 37, inciso XI, da Constituição.

O problema não é novo. O que mudou foi a escala e a visibilidade pública do fenômeno. Casos de remunerações que ultrapassam, com folga, o teto constitucional passaram a ocupar o noticiário com frequência, gerando forte desgaste político e institucional. A percepção social de privilégios incompatíveis com o cenário fiscal do país intensificou a pressão por revisão dessas práticas.

A chamada “farra dos penduricalhos” tornou-se símbolo de um sistema que, ao classificar parcelas como indenizatórias, retira-as da incidência do teto — ainda que, materialmente, funcionem como acréscimo remuneratório permanente.

STF quer “colocar ordem na casa”

Ao propor uma comissão técnica interinstitucional, o STF sinaliza que pretende organizar uma transição responsável, evitando tanto a perpetuação de distorções quanto um choque abrupto que gere insegurança jurídica e contencioso em massa.

A estratégia revela duas preocupações centrais:

  1. Resguardar o teto constitucional como regra efetiva, e não simbólica.
  2. Construir solução dialogada, evitando confronto direto entre Poderes.

Ao mesmo tempo, a Corte assume protagonismo num tema que atinge diretamente o próprio Judiciário. Trata-se de movimento delicado: o Supremo passa de árbitro a agente ativo na reorganização de um modelo que beneficia carreiras de Estado — inclusive a sua própria.

Transição ou reestruturação definitiva?

A criação de um regime de transição sugere que o debate não será restrito à suspensão pontual de pagamentos, mas pode abrir espaço para reestruturações mais amplas no desenho das verbas indenizatórias. A questão central será definir:

  • Quais parcelas têm natureza efetivamente indenizatória;
  • Quais configuram, na prática, remuneração disfarçada;
  • E como ajustar o sistema sem gerar efeito retroativo ou avalanche de ações judiciais.

O prazo de 30 dias indica senso de urgência, mas também impõe desafio técnico relevante. A engenharia jurídica necessária envolve direito constitucional, direito administrativo, finanças públicas e regime jurídico das carreiras.

O impacto institucional

A iniciativa pode representar um divisor de águas na discussão sobre moralidade administrativa e teto remuneratório. Se bem conduzida, a comissão poderá:

  • Reduzir a litigiosidade;
  • Reforçar a autoridade do teto constitucional;
  • Restaurar parte da credibilidade institucional do Judiciário.

Se fracassar, o tema tende a retornar ao plenário do STF com maior tensão política e social.

Por que isso importa

A discussão sobre penduricalhos não é meramente corporativa. Ela toca no núcleo do princípio republicano e na confiança social nas instituições. Em um país de severas restrições fiscais, a coerência entre discurso de responsabilidade e prática remuneratória tornou-se elemento central da legitimidade institucional.

O STF parece ter compreendido que não basta julgar — é preciso reorganizar.

Vá mais fundo

A transição proposta pelo Supremo pode inaugurar uma nova fase no controle do teto constitucional. Resta saber se o movimento será suficiente para transformar exceções recorrentes em regras claras — ou se a “engenharia dos penduricalhos” encontrará novas formas de sobrevivência normativa.

O que está em jogo não é apenas o valor das verbas, mas a própria arquitetura do sistema remuneratório do Estado brasileiro.

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