A direita da esquerda e a esquerda da direita; Por Paulo Elpídio e Menezes Neto

COMPARTILHE A NOTÍCIA

“[…] os contrastes [entre esquerda e direita] existem, mas não são mais os do tempo em que nasceu a distinção; modificaram-se tanto que tornaram anacrônicos e inadequados os velhos nomes. […] Como o conceito de esquerda reduziu a sua própria capacidade conotativa, a ponto de que se dizer de esquerda é, hoje, uma das expressões menos verificáveis do vocabulário político, a velha dupla poderia ser substituída por outra: progressistas–conservadores.”
Norberto Bobbio, “Esquerda e Direita”, Editora UNESP, São Paulo, 1995, p. 33–34

Eticamente, não há como encontrar diferença essencial entre uma ditadura “de esquerda” e uma “de direita”. Ambas, quando no poder, abraçam a mesma liturgia da força e do arbítrio — e algumas teorias de efeito. Esteticamente, apresentam faces particulares que as tornam iguais nas suas diferenças.

De Munique, com a República Soviética da Baviera (1918–1919), à tomada do Palácio de Inverno, em São Petersburgo (outubro de 1917), a esquerda cresceu e buscou — como o faz até hoje — a internacionalização do seu ativismo, recorrendo às mesmas fórmulas insurrecionais do Komintern.

No primeiro caso, uma aventura passageira, esmagada pelos Freikorps da direita. O brado da conquista “da paz” transformou-se em bandeira de tomada do poder pela esquerda, mundo afora. Hoje, somaram ao pacifismo, um tanto fora de moda, a ecologia — como se essa disciplina, com ares de Academia, não pudesse também ser responsabilizada, a exemplo dos governos populares e dos demais, pelos ataques mais diretos e devastadores ao meio ambiente, resultantes de uma economia e de uma industrialização predatórias que se disfarçam de “protetoras” do planeta.

Retomando o fio da conversa: falava eu, acima, sobre as convergências e a polarização construídas pelos arrufos de greis ideológicas — saídas do mesmo ninho de intolerância que empresta, aos menos atentos, a ideia de que possam ser “diferentes”.

A “direita”, tal como chegou até nós no rastro do nazismo e do fascismo, é um galho da árvore frondosa da “esquerda” — costela do barro original desta humana gente. Podemos identificar esses espasmos salvacionistas — socialismo, comunismo e suas variantes bolcheviques — bem como as pequenas plantas do arbítrio germinadas na periferia do “primeiro mundo”: trabalhismo, castrismo, chavismo, petismo, peronismo, allendismo… e todo o universo do “populismo”, ao qual se deu, por vergonha ou constrangimento, a pretensiosa e ingênua designação de “terceira via”.

Paradoxalmente, a new left que tanto encanta o Brasil traz no sangue a mesma matriz que gera comunistas, socialistas, petistas. Suas raízes não estão em Cuba. Têm marca californiana, woke. Falam inglês, leem as orelhas de O Capital, têm opinião formada, fazem uso da bolsa-família, usam relógio de grife e militam em torno do erário. São, por instinto e natureza, seres críticos das certezas alheias.

Para entender o que um “socialista” carrega na sua bagagem woke, basta um olhar cúmplice: vê-se o apego ao desafio de destruir o passado — ainda que não lhe ocorra, com segurança, o que construir no futuro, fora do receituário dos manuais dos coletivos partidários. Dessa gente arrumada da direita, tampouco resultou um projeto consistente de sociedade e, muito menos, de governo.

Esquerda e direita alimentam-se de uma pauta gasta de palpites “múltipla escolha”: são contrapontos das próprias hesitações, traços litúrgicos de um ativismo inesgotável de velhas persignações ideológicas.

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Café da Serra de Baturité recebe selo nacional de Indicação de Procedência

Freio de arrumação no governismo do Ceará: ambições e a difícil engenharia da chapa de 2026

MP dos datacenters caduca e ameaça planos no Ceará, incluindo planos do projeto de R$ 200 bi no Pecém

Camilo, a missão, o ruído e o desconforto de Elmano

TikTok e Omnia contestam laudo do MPF sobre Datacenter de R$ 200 no Pecém

Do jeito que vai, eleição presidencial vai ser decidida pelo eleitor “nem-nem”

A política de segurança, a lógica do crime e os gigolôs da violência

PPP do Esgoto no Ceará: R$ 7 bilhões para universalizar saneamento em 127 cidades

Genial/Quaest: Lula segue com desaprovação maior que aprovação e perde fôlego entre independentes

Lula lidera, mas Flávio encosta e vira principal rival, aponta Genial/Quaest; Polarização se mantém

Jogo aberto: PT acena ao centrão em movimento que mira a disputa do Ceará

Sánchez e a coragem de dizer o impopular; Veja instigante artigo do líder espanhol em defesa moral e econômica dos imigrantes

MAIS LIDAS DO DIA

Relator da CPI diz que caso Master revela infiltração do crime no Estado

Café da Serra de Baturité recebe selo nacional de Indicação de Procedência

Apostas bilionárias e suspeitas antecipam ataque dos EUA ao Irã

Aldigueri entrega Título de Cidadão Cearense a Cristiano Zanin, em Brasília

Bolão do Ceará leva Mega-Sena e leva prêmio de R$ 158 milhões

Dono do Banco Master é preso novamente por ordem de ministro do STF

STJ anula dívida hospitalar assinada por filha após morte do pai

Entidades empresariais querem adiar votação do fim da escala 6×1 para depois da eleição