A última fala de Francisco é um chamado pela liberdade; Ou democratas do mundo, uni-vos!

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Uma chama pela liberdade. Na escuridão da história, a janela se abre — a chama resiste. Símbolo da vigilância democrática, do pensamento livre e da fé que não se dobra ao silêncio.

“Não pode haver paz sem liberdade religiosa, liberdade de pensamento, liberdade de expressão e respeito pela opinião dos outros.”

Essa frase, dita na bênção pascal de 2025, foi a última mensagem pública do Papa Francisco em vida. Proferida por um membro do clero enquanto o pontífice permanecia sentado, visivelmente fragilizado, a fala ecoa como um testamento moral e espiritual — mas também como uma advertência política clara. Francisco se despediu do mundo reafirmando os fundamentos inegociáveis de uma sociedade justa: a liberdade de consciência, o respeito ao pensamento divergente e a convivência entre diferenças.

Sua fala é, sobretudo, um chamamento a todos os democratas do mundo — aos que compreendem que a liberdade é uma conquista civilizatória frágil e constantemente ameaçada. É um alerta aos que prezam os valores democráticos, aos que rejeitam a ilusão das ortodoxias, sejam elas ideológicas, religiosas ou partidárias. Não há regime justo quando um único pensamento, um partido, uma fé ou uma doutrina se impõem como substitutos da pluralidade.

Como ensinou Isaiah Berlin, filósofo liberal do século XX, “a liberdade é incompatível com a imposição de uma verdade única”. Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica e símbolo do conservadorismo democrático, dizia que “a liberdade não é um bem herdado — é conquistada por cada geração”. E Winston Churchill, estadista que liderou o Reino Unido contra o nazismo, cravou: “a democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras”. Francisco se junta a esse coro plural, como uma autoridade religiosa que compreendeu o valor político da dúvida, do diálogo e da escuta.

A ciência política contemporânea reforça essa mesma intuição. Norberto Bobbio, teórico da democracia e do direito, advertia que “o inimigo da democracia é o monopólio da verdade”. Hannah Arendt, pensadora da condição humana e do totalitarismo, via na liberdade o espaço onde o homem aparece diante dos outros como singular e irrepetível. Já Giovanni Sartori, cientista político italiano, alertava para os riscos da “democracia sem conteúdo”, quando a forma sobrevive, mas os princípios se esvaziam — algo que vemos crescer em diversas nações, inclusive nas que historicamente se denominam — e faziam jus — ao papel de guardiãs das liberdades civis.

Francisco não esteve sozinho entre os líderes da Igreja nesse compromisso com a liberdade. João Paulo II, que desafiou o autoritarismo do bloco soviético, também deixou clara sua posição: “A democracia precisa de sabedoria. Precisa de virtude. Se não existe uma verdade última que guie a ação política, então as ideias e as convicções humanas podem ser manipuladas para fins ideológicos”. Com essa frase, pronunciada no Parlamento Europeu em 1988, João Paulo II alinhava-se com os democratas do mundo ao reconhecer que a liberdade e a verdade não se excluem — ao contrário, se sustentam mutuamente.

A fala final de Francisco se inscreve nesse cenário: um tempo em que as liberdades voltam a ser ameaçadas, em que a intolerância se disfarça de virtude e a religião é usada para legitimar repressões. Seu gesto derradeiro não foi ritual. Foi um posicionamento. Ao reafirmar que não há paz sem liberdade, Francisco apontou para o cerne da democracia: não basta votar — é preciso garantir o pluralismo, a dignidade e o respeito.

Ao escolher essas palavras como sua última declaração pública, Francisco deixou não apenas um legado pastoral. Deixou um chamado. A paz verdadeira exige liberdade plena. Quando o mundo parecia disposto a aceitar silêncios e retrocessos, ele reafirmou — com a voz já falhando — que a liberdade é condição da fé e da civilização. E que sem ela, o que nos resta é apenas a aparência de paz, sustentada por medo, exclusão e silêncio.

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