
Por Fábio Campos
fabiocampos@focuspoder.com.br
A comunicação de uma campanha não ganha eleição, mas, se for ruim, pode levar um candidato à derrota. Até aqui, a percepção é que as três principais campanhas de Fortaleza têm feito um trabalho de comunicação correto. As mudanças detectadas no último retrato do Datafolha se deram muito mais pelas circunstâncias materiais e imateriais das três do que pelo desempenho de seus marqueteiros.
No trio de líderes, José Sarto (PDT) é um caso à parte. Detém 40% do tempo no rádio e na TV (aí, é saber usar). Tem consigo a mais azeitada máquina de ganhar eleições no Brasil e, ainda por cima, um nome não completamente desconhecido da cidade e com baixa rejeição. Porém, não são esses os fatores decisivos que o empurram para cima.
O fator determinante a favor de José Sarto é o prefeito Roberto Cláudio. Sim, a gestão. Sim, é essa a especificidade das eleições municipais. Estas têm características próprias em relação às disputas no âmbito estadual e nacional, movendo-se implacavelmente pelo cotidiano do eleitor. Portanto, é sempre uma ideia arriscada estadualizar ou nacionalizar o que à cidade pertence.
Aqui, vale uma pequena digressão. Nas disputas presidenciais dos EUA, ficou famosa a frase “It’s the economy, stupid ” (É a economia, idiota). Trata-se da variação da “The economy, stupid” (A economia, idiota), cunhada em 1992 por James Carville, então estrategista da campanha presidencial de Bill Clinton contra George H. W. Bush. Carvelle proferiu a frase ao explicar a um assessor o que realmente estava em jogo na disputa pela Casa Branca.
O jovem Clinton montou no mau desempenho da economia dos EUA e venceu o republicano. A frase ganhou o mundo e se reproduziu nos trópicos. No Brasil, presidente de uma economia em decadência não se reelege e nem faz sucessor. Fato.
A digressão sugere uma adaptação da frase para as eleições municipais: “É a gestão, idiota”. Ou seja, a percepção dos eleitores acerca da gestão em vigor é o fator realmente decisivo na disputa pela prefeitura de uma cidade. Parece ser exatamente isso o que ocorre agora em Fortaleza.
Nesse ponto, as primeiras pesquisas do Datafolha e do Ibope já haviam dado a senha: RC comanda uma gestão bem avaliada e, como é clássico, ainda melhora seus índices de forma significativa durante a campanha. Um prefeito com uma avaliação ótimo/bom no encalço dos 60% dificilmente será desbancado.
Nos primeiros dias da campanha, formou-se a percepção de que Luizianne Lins (PT) havia construído um paredão ideológico em torno de si. Nesse ponto, tratei de ouvir a leitura do publicitário Ricardo Alcântara, um veterano especialista em campanhas eleitorais. “A queda da Luizianne se deve ao ‘choque de realidade’ pelos ataques desferidos pela campanha de Sarto, que está conseguindo dissociar a Luizianne simbólica da Luizianne gerente”. Percebem?
“Sem o apoio de Lula teria sido pior ainda“, completa Ricardo ao explicar que é um erro apostar que o apoio do ex-presidente à ex-prefeita não a ajudou. Mas, Ricardo faz uma lembrança: “Antídoto para o desespero petista, há 30% de eleitorado flutuante. Ou seja, tem mais 30 minutos de jogo”. Ou seja, Luizianne precisa se lançar ao ataque e buscar os gols.
E o Capitão, está no seu teto de 1º turno? A resposta do estrategista: “Se Luizianne derreter, não. Mas se ela derreter, o Capitão provavelmente captura 1/3 dos votos perdidos pela petista. Se Luizianne se sustentar acima de 20%, só morre na véspera. Abaixo de 15% ela dificilmente ficará”.
“Capitão tem que jogar parado. Quer dizer, sem nenhum movimento novo, cumprindo à risca sua estratégia estabelecida até aqui. O candidato só deve mexer peças se ficar abaixo de 30%. Acima disso, missão cumprida!“, avalia.
E sobre José Sarto? Ouvi do comando da campanha do pedetista que as pesquisas internas já faziam a mesma leitura detectada pelo Datafolha. Portanto, já se tornava necessário ajustes na estratégia. Luizianne iniciara um processo de queda e não era mais adequado manter fogo aéreo sobre ela sob o risco de gerar efeitos colaterais.
A ordem é evitar que o eleitor petista se sinta desconfortável para apoiar Sarto no segundo turno. “Sarto com 22%. Vai brigar por mais (no mínimo) seis pontos percentuais. Precisa fazer a distância agora. Seria muito ruim chegar na última semana d eleição batendo na Lôra. Isso dificultaria a captura dos votos dela para o segundo turno”, explica Ricardo Alcântara. “O ideal para Sarto seria até afagá-la na reta final. Tipo visitar um Cuca“.
“Presumo que LuiIanne irá para o ataque para concretizar a ideia de ser a candidatura anti-Bolsonaro e politizar mais a disputa. Talvez seja mais promissor tentar tomar do Capitão do que tentar conter o crescimento do Sarto. O crescimento dele é substantivo: imagem de gestão + máquina + propaganda + baixa rejeição”.
Não é o que esta acontecendo no momento em função de uma variável nova e surpreendente que interfere no jogo: a notícia não desmentida por Lula de um encontro mantido com Ciro em São Paulo há cerca de um mês. Luizianne reagiu com o fígado e sustenta que se trata de um mentira comprada pela imprensa.
Um ataque arriscado. Só Lula desmentindo o aperto de mãos com Ciro para isso ter algum impacto. Veremos.







