
Por João de Paula
A entrada em Paris foi marcada por humor e emoção. Ao avistar a cidade, Ruth brincou que estava “passando mal”, comparando seu sentimento ao de Batana, uma lavadeira que perdera a fala de emoção ao saber que entraria em Quixeramobim. A anedota leve traduzia o impacto simbólico de Paris — um lugar carregado de expectativas, história e promessas.
Esse impacto logo se misturou à reflexão política. Ao chegar à capital francesa, o narrador se perguntava como viviam, ali, os valores da Revolução Francesa — liberdade, igualdade e fraternidade — e qual era o papel de brasileiros e franceses que atuavam, no exílio, em defesa desses princípios no Brasil sob ditadura. A viagem tinha dois objetivos: articular contatos políticos e, como ninguém é de ferro, conhecer a Cidade Luz.
Mesmo em poucos dias, Paris ofereceu ambos. Houve encontros com exilados e militantes, entre eles Miguel Arraes, ex-governador de Pernambuco, além de reuniões com José Luís Guedes, Manuel Domingos Neto e estudantes refugiados na Casa do Brasil. A cidade consolidava-se como polo de denúncias contra a ditadura e de apoio à luta democrática brasileira.
Essas articulações se ampliaram ao longo de várias viagens posteriores. O trânsito entre Colônia e Paris era fácil, quase rotineiro, e Paris oferecia apoio afetivo e político, como o acolhimento no apartamento de Walkíria e Aécio. Entre reuniões e reencontros com antigos companheiros de prisão e militância, o exílio se tornava também espaço de reconstrução.
De volta a Colônia, a narrativa registra um episódio quase cinematográfico: uma tempestade violenta na autoestrada, enfrentada com imprudente serenidade por brasileiros que, sem rádio, ignoravam o perigo iminente. A cena sintetiza o contraste entre a fragilidade real e a coragem inconsciente do exílio.
A vida cotidiana em Colônia ganhava densidade cultural. Bares universitários reuniam estudantes de toda a Europa e da América Latina. Em um deles, o narrador iniciou sua atuação como locutor na Deutsche Welle e, depois, como tradutor e narrador na Transtel. Esses trabalhos reuniam exilados brasileiros, portugueses e africanos lusófonos, sem interferir nos estudos de medicina.
A atuação profissional também se cruzou com grandes figuras brasileiras. Houve entrevistas com Paulo Freire e, de modo especialmente marcante, com Dom Adriano Hypólito, bispo sequestrado e torturado por grupos paramilitares no Brasil. O relato do bispo responsabilizando a ditadura teve ampla repercussão e revelou as conexões entre repressão oficial e violência clandestina.
Em Mettingen, o Mosteiro Franciscano desenvolvia intenso trabalho de divulgação da realidade brasileira por meio do Institut für Brasilienkunde, articulando fé, política e solidariedade. Professores ligados ao Ceará e à causa democrática ampliavam essa rede de apoio aos perseguidos pelo regime.
O ano de 1976 marcou a expansão dessas iniciativas. Católicos, evangélicos e entidades leigas estruturaram redes de acolhimento, cursos de língua, publicações e federações estudantis voltadas à denúncia da ditadura. Exilados vindos do Chile, do México e de várias partes do Brasil se reencontravam nesse circuito solidário.
Com os estudos estabilizados, bolsas garantidas e trabalho assegurado, a vida do casal entrou em “voo de cruzeiro”, após anos de turbulência. A narrativa, então, dá um salto afetivo: a lembrança de Sebastião Salgado, que telefonou de Paris para trocar experiências sobre a paternidade de filhos com Síndrome de Down. O artista consagrado revelava-se também profundamente humano, sensível e solidário.
De Maranguape,
João de Paula






