O marca passo. Por Angela Barros Leal

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A família morava em um município distante da Capital, um desses cujo nome aparece, no mapa do Ceará, com excesso de vogais, denunciando origens indígenas, lugares que um dia foram sem fé, sem lei e sem rei nos nossos Tristes Trópicos. Os pais e os mais idosos permaneciam lá. Há tempos, os filhos haviam trocado o interior pelos atrativos da Capital, em graus variáveis de sorte. Para as gêmeas, as caçulas, o destino traçara rumos distintos. 

Uma delas casara, e levava a vida de modesta dona de casa. A outra, com seu rosto de permanente alegria, a mais querida do pai, fora acolhida por uma família receptiva que a incorporara ao círculo familiar. Era impossível alguém não gostar dela. Desde mocinha, assumira os cuidados com filhos do casal da casa onde trabalhava. Tivera uma filha, de um breve amor da juventude, mais um bebê a se integrar à família, que cuidava de mãe e filha como se fossem frutos do mesmo berço. 

O pai dela continuou trabalhando na roça, animando o final do dia ao som da sanfona e do violão, que gostava de tocar toda noite, nesses alpendres do interior de onde se avistam o brilho das estrelas e a luz da lua.

Os filhos voltavam, de vez em quando, para visitar os pais. Com mais regularidade, ela dava um jeito para que os pais fossem à Capital, especialmente quando era tempo dos exames de saúde, quando a mãe se queixava ao telefone de mil e uma dores, ou quando a voz paterna, junto aos ouvidos atentos dela, parecia estar mais fraca.

Assim foi descoberto o problema no coração do pai, que precisou colocar um marca-passo salvador. Voltou para casa satisfeito, orgulhoso do artefato calibrando as batidas do coração, como um tambor ressoando nas mãos de um mestre, marcando o ritmo em dois tempos da sanfona, do violão.

Foi um susto imenso para os filhos quando um vizinho ligou para avisar que o pai deles tinha sido atingido por um raio. Um raio! – eles se boquiabriram. Raios eram comuns na cidade e no entorno dela, mas um raio cair sobre alguém, e justo sobre o pai deles, isso parecia história de trancoso.

Retornaram em bando para escutar a história da boca do pai, que sobrevivera ao encontro eletrizante. Sou duro na queda, ele dizia a quem quisesse ouvir. Nem raio me derruba. E haja sanfona para acompanhar o compasso da narrativa, a ser repetida infindas vezes às visitas, contando como tinha saído para a roça, sob um céu que transformara o dia em noite, como ouvira o estrondo brutal, e como acordara deitado sobre o braço direito, as costas envergadas no tronco de uma bananeira, os cabelos arrepiados para o alto, sem um machucado sequer no corpo.

Comentaram depois que o marca-passo tinha atraído o raio, só podia ter sido isso, que era melhor ele cuidar de não sair mais na chuva. Ele não dava importância. Mas se preocupou a sério quando soube que uma das filhas gêmeas estava com câncer. 

Ela escondera de todos, na casa morava, as dores, os sangramentos, a perda de peso. Não era de incomodar ninguém. Quando decidiu revelar, e foi levada para exames, era tarde demais. Lutou dois anos contra a doença. Por três vezes viu cair todo o cabelo, que nascia de volta em fios brancos, teimosos, encaracolados. Nunca perdeu o sorriso, nem a fé inabalável em Deus.

A família adotiva foi ao enterro, na cidade onde ela nascera, único pedido feito antes de partir. Há meses não chovia. O cemitério era um quase nada de terra seca, uma plantação desarrumada de cruzes de madeira, gastas pelo sol. Almoçaram depois na casa dos pais dela, a mesa posta como se fosse para uma festa.

Antes de irem embora, posaram para uma foto no alpendre: os pais sentados em cadeiras de vime, todos os filhos em volta, a filha dela logo atrás do avô, a família da Capital junta em uma ponta da foto. Estavam todos sérios, menos ela, presente com seu sorriso aberto, em fotografia emoldurada apoiada no joelho esquerdo do pai.

A sanfona e o violão ficaram encostados na parede do quarto do casal, durante mais de um ano. Próximo à data em que iria completar o primeiro aniversário da morte da filha, o pai passou mal. Não foi no dia exato, porque essa história não é ficção, mas naquele dia ele falou que ia morrer. Deitou-se na rede branca, depois do almoço, e assim se foi.

No enterro, antes de ser plantada outra cruz ao lado da cruz da filha, os acompanhantes jogaram a culpa outra vez no marca-passo: que o pai não tinha voltado para a necessária revisão, que máquina não merece confiança, essas tentativas de explicar o impossível. 

A voz da viúva, vestida de preto sob o sol, se fez ouvir encerrando a discussão: Não tem marca-passo que conserte coração partido, ela dissera sabiamente, a voz mais seca do que o chão escavado. Os que estavam lá se calaram. Era verdade. Não podia ter sido outra a causa mortis. Ele morrera de saudade, porque sem aquela filha não valia a pena deixar bater o coração. 

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