
Por João Flávio Nogueira
Médico Otorrinolaringologista
Como médico otorrinolaringologista, profissional de saúde que atende diariamente pacientes com suspeita de COVID-19, fui vacinado em janeiro desse ano (2021) com a CoronaVac, vacina feita pela chinesa SinoVac e envazada pelo Instituto Butantan, em São Paulo.
Foi uma grande alegria ter sido imunizado contra essa doença que já matou amigos pessoais e parentes próximos. Mas também, como escrevi nas minhas redes sociais na época em que fui vacinado, um sentimento misto com tristeza também me tocou. Por que?
Por basicamente 2 razões: primeiro porque, mesmo correndo riscos com meu trabalho, sabia que estava sendo um grande privilegiado em detrimento de outras pessoas que talvez merecessem mais a vacina do que eu, como os idosos, por exemplo. Em janeiro, mês em que me vacinei, eu fazia parte de uma porção ínfima da população brasileira (e mundial) que recebera algum imunizante contra o SARS-CoV-2.
E em segundo lugar porque sabia que a tecnologia da vacina não era brasileira. Aliás, muito do que usamos e consumimos de inovações tecnológicas e medicamentos em “saúde” não é “made in Brazil”. E isso pode ser um assunto interessante e importante, mas para um outro texto.
Voltemos ao foco inicial. Hoje (26 de março de 2021) o Governo de São Paulo anunciou que o centenário Instituto Butantan solicitará à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) a autorização para o início dos testes clínicos em humanos da ButanVac, vacina, segundo o Instituto, 100% brasileira.
Isso é um avanço tremendo! Uma baita notícia. Também hoje, por meio de entrevista coletiva, o Ministro de Ciência e Tecnologia, o astronauta Marcos Pontes, anunciou que a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), além de um consórcio de empresas, dentre elas brasileira Farmacore Biotecnologia e a americana PDS Biotechnology Corporation, também solicitou à ANVISA autorização para testes em humanos da Versamune®️-CoV-2FC, vacina a ser produzida também 100% no Brasil.
São duas notícias gigantes. A vacinação em massa da população é a forma mais efetiva de tentarmos retornar à alguma normalidade nas nossas vidas num médio prazo. Aliás, a vacinação em massa salva vidas, e muitas!
E muito me alegra, como médico e pesquisador, ver que passamos de discussões inférteis sobre medicamentos, ou até mesmo negacionismos em relação às vacinas, numa “quase-reedição” da “Revolta da Vacina” do início do século passado aqui no Brasil, para uma discussão sobre mais vacinas, quase numa “Guerra das Vacinas”, uma guerra do bem para ver quem consegue mais imunizantes para o país, se o Governo Federal ou o Governo de São Paulo.
Não sou ingênuo ao ponto de não imaginar que exista uma luta política associada, mas a notícia do dia, aquela que temos que comemorar é que, finalmente, nosso país terá, se os estudos de segurança e eficácia correrem todos bem, a capacidade de produzir (e até exportar) uma vacina 100% nacional, com tecnologias próprias.
A ButanVac usa a tecnologia já conhecida e consagrada do vírus modificado que funciona como vetor, semelhante à da AstraZeneca/Oxford. A ButanVac utiliza um vírus da Doença de Newcastle, uma gripe aviária que não afeta humanos.
Chamado de APMV-1, o vírus da doença aviária é usado como vetor para transportar a proteína “spike” do coronavírus integralmente. Assim, uma resposta imune é gerada na pessoa vacinada, quer seja mediada por anti-corpos (os hoje em dia famosos e até “desejados” IgG’s), quer mediada por nossas outras imunidades, como as produzidas por células do tipo CD4 e CD8, quer a imunidade inata, induzindo memória imunológica e proteção de longo prazo contra o vírus Sars-CoV-2, causador da Covid-19.
Já a Versamune®️-CoV-2FC usa a tecnologia da “proteína recombinante”, a mesma utilizada, por exemplo, na vacina americana Novavax. Nesta técnica, pesquisadores cultivam em laboratório réplicas inofensivas da proteína que o SARS-CoV-2 usa para entrar nas células do corpo. Depois de extraída e purificada, a proteína é embalada em nanopartículas do tamanho do vírus. No caso da Versamune, a nanopartícula foi desenvolvida pela americana PDS Biotech.
Ou seja, se tudo der certo, em breve, teremos muitos imunizantes disponíveis no Brasil. Além dos já aprovados pela ANVISA: CoronaVac, AstraZeneca/Oxford, poderemos ter ainda esse ano as vacinas Sputinik V (Rússia), além dos imunizantes da Pfizer e Moderna e os nacionais ButanVac e Versamune.
Tanto as vacinas ButanVac, quanto a Versamune muito provavelmente necessitarão de duas doses para uma imunidade eficaz. Essas duas vacinas, até pelas tecnologias aplicadas, requerem temperaturas de armazenamento compatíveis com um freezer comum, não extremamente baixas, como os produtos da Pfizer e Moderna.
Que comece a nossa “Guerra da Vacina”, um confronto que pode até ter pano de fundo político, mas que vai nos beneficiar a todos, afinal, concorrência pode ser a “alma do negócio”.
O conteúdo dos artigos publicados pelo Focus não necessariamente reflete o ponto de vista editorial do portal, sendo as opiniões e análises de responsabilidade exclusiva de seus autores.







