Freio de arrumação no governismo do Ceará: ambições e a difícil engenharia da chapa de 2026

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O roteiro do fim de
semana político no Ceará, com um notório freio de arrumação, expôs menos uma harmonia consolidada e mais um importante esforço para administrá-la.

A exibição de força de Eunício Oliveira, cercado pelas principais lideranças governistas, sinaliza que o MDB cobra, de fato, protagonismo real na chapa de 2026 e não apenas participação protocolar. Assim também o PSD, o PSB, o PT, Chiquinho Feitosa…

Mas a ausência de Cid Gomes no evento do MDB, longe de detalhe, reacende um antagonismo histórico entre os dois e lembra que a acomodação interna está longe de ser simples. Cid, senador, figura central do projeto e prócer do PSB, evitou um palco que simbolizava a ascensão de um potencial concorrente direto a uma das duas vagas.

Detalhe: a possível candidatura de Eunício tem como efeito a não recondução de Jade Romero para a vice. Fato que parecia notório no rosto da vice no momento em que Camilo parecia conceder aval à pretensão senatorial de Eunicio.

O esforço político de vender unidade esbarra justamente nesse ponto: há mais pretendentes competitivos do que espaços disponíveis. Numa eleição para duas cadeiras, a presença de um nome como Eunício altera a equação e pressiona o grupo a escolher quem ficará de fora, decisão sempre traumática em alianças longas.

A insistência para que Cid dispute a reeleição revela tanto reconhecimento de sua força quanto receio de perdê-lo para fora da chapa ou vê-lo atuar de forma menos engajada. Ele oferece densidade eleitoral, massa crítica e legitimidade histórica, mas também é ator capaz de atos mais extremos  quando se sente deslocado.

O reencontro caloroso entre Camilo e Cid ajuda a conter a percepção de ruptura, mas não resolve as divergências estruturais. A história política recente do Ceará mostra que alianças aparentemente sólidas podem se desgastar quando chega a hora de dividir poder concreto. O governismo tenta antecipar a acomodação para evitar fissuras públicas, porém o custo desse controle é a compressão de conflitos legítimos, que tendem a reaparecer mais adiante com maior intensidade.

No fundo, o bloco enfrenta um dilema clássico de grupos hegemônicos longevos: quanto mais lideranças fortes produz, mais difícil se torna acomodá-las sem perdas. Eunício representa a força partidária e municipal do MDB; Cid, a legitimidade e popularidade acumuladas; Camilo, a liderança popular com forte força de articulação entre Ceará e Brasília; Elmano, a continuidade administrativa segura e despretensiosa. Não há fórmula indolor para combinar esses vetores (e diversos outros interesses) numa única chapa. Diga-se: excesso de opções é muito melhor do que a falta delas.

A ausência de Cid no evento de Eunício foi um lembrete silencioso de que a unidade proclamada ainda depende de negociações delicadas e de concessões que ninguém parece disposto a anunciar agora.

Se a estratégia é projetar coesão antecipada, o risco é que ela se revele mais performática do que real. A sucessão de 2026 começou sob o signo da cautela, mas também da desconfiança mútua.

O governismo sabe que precisa chegar unido à eleição; o problema é que, desta vez, a unidade não será fruto apenas de vontade política, e sim de escolhas difíceis sobre quem terá prioridade no projeto e quem terá de esperar.

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