
Por Fábio Campos
Há homens que constroem uma carreira. Outros constroem uma época. Cid Sabóia de Carvalho pertenceu à segunda categoria.
Sua morte encerra um capítulo da vida pública cearense que dificilmente voltará a existir. Advogado, professor universitário, jornalista, radialista, escritor, poeta, acadêmico e ex-senador da República, Cid foi um daqueles personagens raros capazes de transitar com a mesma autoridade pelos microfones de rádio, pelas salas de aula da Universidade Federal do Ceará, pelos plenários do Congresso Nacional e pelos salões das academias de letras. (Senado Federal)
Mas reduzir sua trajetória aos cargos que ocupou seria cometer uma injustiça. Cid Carvalho era filho de outra tradição.
Era herdeiro de uma linhagem de intelectuais para quem comunicação, literatura, política e pensamento formavam um mesmo universo. Filho do poeta, jornalista e romancista Jáder Moreira de Carvalho, fundador do jornal A Esquerda e diretor do histórico Diário do Povo, e da escritora Margarida Sabóia de Carvalho, cresceu em uma casa onde livros, jornais, debates e ideias faziam parte da rotina cotidiana. Antes mesmo de completar a adolescência, já respirava jornalismo e política como quem aprende naturalmente a própria língua. (Wikipédia)
Não surpreende, portanto, que tenha começado tão cedo.
Aos 12 anos já comentava política e esporte nas rádios Uirapuru e Assunção, iniciando uma relação com a comunicação que atravessaria quase oito décadas. Vieram depois os jornais, a televisão, os programas de rádio, as colunas de opinião e uma das vozes mais reconhecidas do Ceará. Seu estilo era firme, elegante e profundamente argumentativo. Discordava sem recorrer ao insulto, criticava sem perder a civilidade e fazia da informação um exercício de responsabilidade pública. O bordão “Doa a quem doer” sintetizava uma personalidade que nunca se acomodou às conveniências do momento.
Enquanto construía uma carreira na comunicação, formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará, tornou-se professor da própria Faculdade de Direito e também das Faculdades de Economia e Filosofia da UFC, exerceu a advocacia, foi procurador e produziu extensa obra intelectual, publicando livros de poesia, ensaios jurídicos, discursos parlamentares e estudos sobre comunicação. Pertenceu à Academia Cearense de Letras, ao Instituto do Ceará, à Academia Cearense da Língua Portuguesa, à Academia Cearense de Retórica e foi o primeiro presidente da Academia Fortalezense de Letras. Era, acima de tudo, um homem apaixonado pelo conhecimento. (Academia Cearense de Letras)
Sua passagem pela política também deixou marcas.
Eleito senador em 1986, participou da Assembleia Nacional Constituinte que deu ao Brasil a Constituição de 1988. Presidiu a Subcomissão do Sistema Financeiro da Constituinte, participou das discussões sobre o sistema tributário e orçamentário e relatou, anos mais tarde, uma das versões do projeto da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Também ganhou projeção nacional ao relatar investigações sobre o esquema de corrupção ligado ao ex-presidente Fernando Collor, em um dos momentos mais delicados da vida política brasileira. (Wikipédia)
Mas talvez seu maior legado tenha permanecido longe dos mandatos. Cid nunca deixou de ser jornalista. Mesmo depois de ocupar uma cadeira no Senado, voltou naturalmente aos estúdios, aos artigos e aos comentários políticos. Não encarava a comunicação como etapa anterior à política nem como atividade posterior a ela. Era sua vocação permanente.
Nos últimos anos, continuava sendo presença respeitada no Grupo Cidade, escrevendo, comentando e participando do debate público com a mesma lucidez que marcou toda a sua trajetória. Seguidor convicto da doutrina espírita, enxergava a existência sob a perspectiva da continuidade da vida. A espiritualidade nunca foi um detalhe em sua biografia; era parte da maneira como compreendia o mundo, as relações humanas e o próprio exercício da vida pública.
Para mim, contudo, a despedida ultrapassa a dimensão institucional. Como jornalista, o entrevistei pelo menos duas vezes. cadeira de balanço, sua casa simples na Parquelândia. Como ouvinte, é parte de minha formação pessoal e profissional. Na siesta familiar, ligava o rádio para minha mãe ouvi-lo. Rádio Uirapuru. Angélica Martins, minha prima, jornalista, o ajudava a ancorar o programa que ia do meia dia às 13 horas.
Sua cultura, seu refinamento no trato com as pessoas e sua extraordinária capacidade de comunicação. Conversar com Cid era sempre aprender alguma coisa. Não importava se o assunto era política, literatura, direito, filosofia, história ou rádio. Havia sempre uma referência, uma memória, uma reflexão.
Era um comunicador de outra geração. Uma geração que acreditava que a palavra carregava responsabilidade. Que opinião exigia estudo.
Que divergência não dispensava elegância. Que cultura nunca foi adorno, mas ferramenta de trabalho. Sua partida deixa um vazio difícil de preencher justamente porque homens como Cid Carvalho já não são formados com a mesma frequência. Eram intelectuais públicos no sentido mais completo da expressão: homens capazes de pensar, ensinar, comunicar e servir.
Hoje, Cid Carvalho deixa o plano terreno. Para quem compartilhava de sua fé espírita, trata-se apenas de uma passagem. Que Deus o receba em paz. E que a espiritualidade o acolha com a mesma serenidade com que ele viveu entre nós.






