O silêncio de Cid Gomes não é dúvida. É método.

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A pressão sobre Cid Gomes é crscente. Aliados querem uma definição sobre sua eventual candidatura à reeleição ao Senado. As especulações se multiplicam, pesquisas continuam incluindo seu nome entre os favoritos e lideranças da base governista defendem publicamente sua permanência na disputa. Ainda assim, o senador escolheu o silêncio. Mergulhou. Para quem acompanha sua trajetória, porém, esse comportamento está longe de representar uma novidade. É, na verdade, um método.

Há quem interprete essa espera como hesitação. A trajetória de Cid recomenda outra leitura. Ao longo de décadas, ele consolidou uma forma própria de fazer política, baseada na utilização integral do calendário eleitoral. Para Cid, o prazo previsto na legislação não é mera formalidade. É parte da estratégia.

E não faltam declarações suas quanto ao padrão que utiliza. Em março e passado, o senador declarou em alto e bom som o seguinte: “Essa questão para o Senado vai demorar mais um pouco. O calendário, assim, a gente da política e vocês da imprensa, é porque gostam de precipitar as coisas, mas já está na lei os prazos definidos. Então não adianta a gente querer definir uma coisa hoje, que a lei estabelece que formalmente a decisão só acontecerá lá na frente… A definição de candidatura pode começar formalmente? É claro que você pode…  Isso [potnciais mudanças], muito provavelmente, exigirá da gente alguns compromissos, mas que, de fato, só irão se concretizar entre o dia 20 de julho e 5 de agosto. Aí é que acontecerão as convenções e a oficialização de coligações e de candidaturas”.

Ou seja, enquanto houver espaço para negociações, qualquer decisão definitiva é considerada prematura. Na sua lógica, antecipar escolhas significa reduzir a capacidade de acomodar interesses e construir consensos.

Foi exatamente assim em 2022. Durante semanas, a sucessão estadual permaneceu cercada de especulações, enquanto as conversas avançavam nos bastidores. O Focus Poder informou, em primeira mão, na madrugada de 24 de julho, que o PT convergia para o nome de Elmano de Freitas, resultado de uma complexa articulação política que conciliava pesquisas, interesses partidários e lideranças da aliança. Horas depois, Camilo Santana confirmou o que o Focus havia antecipado e a convenção cinco dis pedois oficializou a aliança.

Trocando em miúdos, a oficialização ocorreu no momento previsto pela legislação eleitoral, durante as convenções partidárias, quando toda a chapa majoritária foi apresentada. Não houve atraso.  No padrão Cid, houve o aproveitamento integral do tempo que a lei reservava para a negociação.

Esse modo de agir produz desconforto. Alimenta especulações, amplia a ansiedade dos aliados e dá margem para interpretações de indefinição. Ainda assim, Cid parece considerar que esse desgaste é menor do que o risco de fechar uma composição antes que todas as variáveis estejam suficientemente maduras. Em outras palavras, é como dizer que cada lado do jogo tem seu próprio tempo e cder às demandass de temo dos outros não é inteligente. Tem sentido

O episódio de 2010 talvez seja a demonstração mais emblemática dessa forma de fazer política. Naquele ano, Tasso Jereissati aguardava uma definição de Cid sobre a composição da disputa ao Senado. O então governador empurrou com a barriga enquanto possível. Sem disposição para esperar o desfecho das negociações, Tasso lançou sua candidatura pelo PSDB. A decisão acabou deixando Cid livre para consolidar a aliança com PT e MDB, que elegeu Eunício Oliveira e José Pimentel, derrotando justamente aquele que era considerado o favorito da disputa. Tasso jamais deixou de interpretar aquele episódio como uma traição política.

Não existe estratégia infalível. Cada eleição impõe circunstâncias próprias. Mas a história mostra que Cid raramente abre mão do tempo que a legislação lhe concede. Seu método sempre foi negociar até o último momento possível. Quem espera uma definição antecipada talvez esteja olhando para o calendário da imprensa e, principalmente, para seu próprio umbigo. Cid, ao que tudo indica, continua olhando para o calendário da lei.

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