
Há momentos em que a política exige menos ideologia e mais inteligência. Foi exatamente isso que faltou ao senador Flávio Bolsonaro. Aliás, parece algo recorrente.
Ao encaminhar um documento ao governo americano pedindo o adiamento, por 180 dias, das tarifas sobre produtos brasileiros, Flávio acertou no diagnóstico imediato: o tarifaço é ruim para o Brasil, para empresas brasileiras e também para consumidores e importadores americanos. Mas errou na estratégia. E errou de forma decisiva.
O pedido não foi para que as tarifas fossem retiradas. Para que jamais sejam impotas. Foi para que fossem adiadas até depois das eleições brasileiras. Na prática, a mensagem enviada aos Estados Unidos foi a de que o problema não são as tarifas, mas o calendário eleitoral. É exatamente aí que reside o desastre político.
A formulação inteligente seria outra: defender que não houvesse tarifa alguma, independentemente de quem estivesse no poder. Havia argumentos técnicos suficientes para isso.
Os próprios números desmontam a lógica do tarifaço. Ao contrário do que costuma ocorrer nas disputas comerciais americanas, os Estados Unidos mantêm superávit na relação com o Brasil. Segundo dados apresentados pelo governo brasileiro com base em estatísticas americanas, o saldo favorável aos EUA supera US$ 400 bilhões ao longo dos últimos 15 anos quando considerados bens e serviços. Apenas em 2024, o superávit americano foi de cerca de US$ 7,4 bilhões em mercadorias e ultrapassou US$ 28 bilhões incluindo serviços. (Agência Brasil)
Ou seja, havia base econômica para sustentar uma defesa firme do livre comércio entre os dois países.
Mas Flávio escolheu outro caminho. Ao vincular seu pedido ao processo eleitoral brasileiro, acabou oferecendo ao governo Lula exatamente o discurso que o Palácio do Planalto procurava.
Não demorou. Lula respondeu afirmando que a família Bolsonaro demonstra “entreguismo” e pretende submeter o Brasil aos interesses americanos.
Independentemente do mérito da crítica, a comunicação política do governo foi rápida e eficiente. Lula compreendeu imediatamente qual seria a percepção pública da carta: um parlamentar brasileiro pedindo a um governo estrangeiro que modulasse suas decisões em função da eleição presidencial brasileira.
Na política, percepção quase sempre vale mais do que intenção.
O próprio documento de Flávio reconhece que a pressão tarifária fortaleceu eleitoralmente o governo Lula ao alimentar o discurso de defesa da soberania nacional. Ainda assim, conclui pedindo apenas que a medida seja adiada para depois da eleição — justamente reforçando o enquadramento que diz combater. (Reuters)
É uma contradição difícil de explicar. A inteligência política consiste justamente em antecipar os efeitos colaterais de uma ação. Nesse aspecto, Flávio Bolsonaro voltou a demonstrar uma característica recorrente: frequentemente enxerga o problema imediato, mas falha na leitura das consequências políticas.
No fim, transformou um argumento econômico sólido em um enorme presente para o adversário.
Na política, isso costuma custar caro.






