
No mundo mágico do futebol, é comum falarmos de grandes craques, dirigentes lendários e resenhas memoráveis. Acompanhamos a evolução técnica e tática do jogo, os milagres da medicina esportiva, a inflação alarmante nos salários dos deuses do espetáculo e os números assombrosos que cercam o evento. Nada contra, muito menos a contestar.
Mas guardo na memória os jogadores peregrinos, que batiam de porta em porta nas cidades do sertão à procura de uma chance. Vestiam-se a caráter: camiseta de malha, bermuda curta exibindo o físico, cabelos longos à Pigmalião, um amuleto no pescoço e uma mochila esfarrapada nas costas. Vejo com espanto esses dois extremos: de um lado, o status e a riqueza dos astros atuais, bilionários; de outro, a pureza de Garrincha que, consagrado após ajudar o Brasil a conquistar dois mundiais, dizia que o dinheiro do seu primeiro contrato servira apenas para “levar umas coisas para casa e comprar cigarro”.
Se a moeda tivesse três lados, a terceira face seria a do presidente abnegado, apaixonado e desprovido de vaidade dos clubes de várzea, de bairro, da periferia e da zona rural. É o homem que compromete a renda escassa do lar, negligencia as demandas básicas da família, falha no acompanhamento escolar dos filhos e falta à missa dominical.
Nunca está disponível. Enquanto isso, o varal do seu quintal amanhece embandeirado de camisas com axilas enodoadas e meiões de cheiro forte, aguardando o tanque e a paciência da primeira-dama.
São os pedidos inalcançáveis dos atletas, o treinador que faz cara feia ameaçando aceitar outra proposta, o frete do caminhão vencido… Vem a conta da farmácia, os jogadores cobrando o “bicho” e o dono da bodega exigindo o pagamento da última comemoração.
Vida que segue entre o esporte, a paixão e a fé.
Essa engrenagem romântica não figura nos planos do poder público ou das grandes corporações. Estes preferem esperar pelo produto acabado, na hora do “bem-bom”, quando se torna fácil reivindicar os louros da vitória.
No fundo, todos vivem à espera do milagre da revelação: um garoto virtuoso, saído do barro, para se tornar a bandeira do clube pelo resto da vida.







