Michelle Bolsonaro renunciou à presidência do PL Mulher, “depois de muito refletir” com seu “marido“. Um dia depois, Valdemar Costa Neto anunciou que o posto ficaria sem presidente (com “e” mesmo, pois na direita não se fala “presidentA”), o que significou um banho de água fria em Priscila Costa, que ganharia um protagonismo sem precedentes numa campanha que se anuncia como de grandes dividendos eleitorais para a “bancada da Michelle“.
Desde a última segunda, próceres do PL informavam, in off, que o “estrago” na imagem de Flávio Bolsonaro com as revelações da madrasta passaram longe do que pensava a opinião pública, mas somente hoje, com os dados revelados pela Altas/Blommberg pudemos ter a dimensão do quão diminuto foi o efeito, de fato, das declarações de Michelle no interior do bolsonarismo, e talvez seja exatamente isso o que explique o duplo movimento de “sua” decisão de “deixar” a presidência – uma decisão, por certo, do “cabeça da Igreja“, ops, do “cabeça da família“, a quem a “mulher prudente” deve obedecer, e tal decisão foi prontamente colhida pelo “dono do cofre”, que preside o PL.

Vejamos os dados da pesquisa:
1- à pergunta “Na sua opinião, qual é o melhor nome para liderar a direita e as pautas conservadoras nos próximos anos, na ausência de Jair Bolsonaro?”, Michelle aparece num longínguo sexto lugar (com 4%), atrás de Flávio, Nikolas, Renan Santos, Eduardo e Tarcísio.
2- aos eleitores de Jair Bolsonaro se perguntou: “Entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro, quem você preferiria como candidato da direita na eleição presidencial de 2026?“; Flávio foi o apontado de 82% deles, ao passo que Michelle 15%. Obs: nessa questão, apenas 11% das mulheres, 18% dos evangélicos e 13% dos que viram o vídeo apontaram a preferência por Michelle.
3-também aos eleitores de Jair Bolsonaro se perguntou: “Como você avalia o nível de lealdade das seguintes figuras políticas a Jair Bolsonaro?“. Enquanto Flávio foi tido como totalmente leal (79%) e muito leal (8%) em índices consideráveis (e nada leal para apenas 4% dos entrevistados), Michelle apresentou-se como nada leal (15%) e pouco leal (4%) para quase um quinto, sendo seu indíce de totalmente leal pouco mais de 50%.
4-para a totalidade dos entrevistados, Flávio é “mais fiel às orientações políticas de Jair Bolsonaro” do que Michelle: 38 a 15% (o que se expressa, também, entre as mulheres [42 a 13] e entre os evangélicos [38 a 19]).
5-o percentual de eleitores de Jair Bolsonaro que discordam da decisão de publicação do vídeo é de 66%, ao passo que apenas 25% concordam.
6-ao responderem à questão “você acredita na acusação que Michelle Bolsonaro levantou contra Flávio Bolsonaro de que ele teria sido “grosseiro”, “desrespeitoso” e de que ela teria sido “humilhada” por ele?“, 55% dos eleitores de Jair Bolsonaro responderam que “não”, sendo 30% os que disseram acreditar.
7-frente à questão “pelo que você sabe sobre o desentendimento entre Michelle e Flávio Bolsonaro, com qual posição você tende a concordar mais?”, 43% diseram concordar com Flávio, 17% com Michelle.
8-outra questão vai em cheio contra a posição de Michelle: 54% x 37% apoiam a aliança com Ciro Gomes (PSDB) no Ceará.
9-à questão “Qual você acredita que foi a motivação principal do vídeo publicado por Michelle Bolsonaro?”, os entrevistados apontaram o desejo de Michelle de “ocupar o lugar de Flávio” na chapa presidencial (37%), a exposição de “divergências pessoais e políticas” (28%) e o desejo de “aumentar seu poder no PL” (22%).
10-mas, para não dizer que não falei de flores, duas questões positivas para Michelle: a fatia dos que consideram sua presença “muito importante” (29%) ou “importante” (26%) para a campanha de Flávio é considerável, e o conteúdo do vídeo é visto com potencial de “muito enfraquecimento” (38%) ou algum enfraquecimento (26%) para parcela considerável.
Bom, passamos os dois últimos anos vendo o núcleo duro de apoiadores do ex-presidente a ressaltar as imensas virtudes, humanas e políticas, da ex-primeira dama. Seu trabalho à frente do PL Mulher foi cantado em prosa e verso por esse núcleo como uma grande “revolução conservadora”, um novo modo de fazer política em curso.
Michelle era o grande ativo feminino que a direita brasileira portava – o contraponto com Janja era cotidiano.
A “mulher sábia“, “eterna primeira dama“, a “mulher que sabe cuidar do Brasil“.
“Dona Michelle”: era assim que se anunciava sua presença por onde passava.

Bastou que fugisse um pouco do traço estrutural que constitui a direita brasileira – aquele que assegura a submissão e o auxílio como marcas femininas par excellence – para que essa fatia do eleitorado tomasse posição em favor do líder, homem, e de seu escolhido, também ele um homem.
Tudo legitimado em muito rosa.
Mulheres que vestem rosa em nome do azul.
Seu nome, como aposta da direita, está abaixo de vários homens, dois dos quais são os enteados que a “maltratam“, como disse no vídeo.
A senadora Damares Alves (REP) referiu-se à “violência política de gênero”, ao encerrar a sessão da Comissão de Direitos Humanos do Senado nesta quarta (01/07), perpretada contra ela e contra Michelle, com uma palavra de ordem: mulheres, não desistam da política!
A poucos metros dali, no Plenário da Câmara e nas redes, mulheres do PL mobilizavam-se contra o PL da misoginia. Sabem para que eleitorado falam.
Pelos dados dessa pesquisa, Damares “choveu no molhado”, uma vez que tais comportamentos estão naturalizados em seu espectro político, vistos, segundo os dados, como “desejo de poder” de uma mulher que, ao fim e ao cabo, se mostrou como desleal ao líder – mesmo falando, o tempo todo, dos cuidados a ele dispensados por ela.
Não basta, para essa base, “cuidar do galego”. Precisa-se, legitadamente, poder vestir azul, como Flávio, Nikolas, Renan, Eduardo, Tarcísio.






