
O fato: As empresas Eneva e Diamante Energia lançaram a pedra fundamental da Usina Termelétrica Jandaia, no Complexo do Pecém. O projeto envolve R$ 5,5 bilhões em investimentos e deve gerar mais de 2 mil empregos durante as obras. O empreendimento nasceu justamente do leilão federal de capacidade que está sendo contestado na Justiça por entidades cearenses e cuja homologação virou alvo de disputa entre renováveis e termelétricas (veja aqui).
O detalhe relevante: O projeto não se limita à usina. Está prevista a construção do chamado Píer Zero, estrutura dedicada ao recebimento de gás natural liquefeito (GNL), com investimento estimado em R$ 430 milhões. A obra deverá ser executada pela Marquise Infraestrutura e será fundamental para transformar o Pecém em uma nova plataforma logística do gás natural no Nordeste.
O paradoxo cearense: A ação judicial que questiona o leilão teve participação da Fiec e do Sindienergia. O argumento é que o modelo adotado favoreceu usinas movidas a gás em detrimento das energias renováveis. Mas o mesmo leilão que está sendo contestado viabiliza alguns dos maiores investimentos industriais atualmente previstos para o Ceará.
O outro lado: Os defensores do certame argumentam que a expansão da energia eólica e solar exige fontes de geração capazes de entrar em operação quando o vento diminui ou quando a produção solar cai no fim da tarde. É a chamada energia firme. Sem ela, sustentam os especialistas do setor, o sistema elétrico perde confiabilidade.
O contexto político: Nos bastidores, a disputa opõe dois grupos com forte influência nacional. De um lado, o setor das renováveis, liderado por empresas como a Casa dos Ventos, do empresário cearense Mário Araripe, e defendido politicamente pelo deputado federal Danilo Forte.Do outro, grupos ligados à expansão do gás natural e das termelétricas, que contam com forte interlocução dentro do governo federal.
O ponto cearense: O Estado possui interesses estratégicos nos dois lados da mesa. A Casa dos Ventos é peça importante para o fornecimento de energia aos futuros data centers previstos para o Pecém, associados a investimentos que podem ultrapassar R$ 200 bilhões.Ao mesmo tempo, a termelétrica Jandaia e o novo terminal de gás representam uma das maiores ondas de investimento industrial em andamento no Ceará.
A palavra do governador: Elmano de Freitas comparou o questionamento na Justiça aos impasses da Reforma Tributária e avaliou que faz parte dapluralidade do setor energético brasileiroe do projeto democrático da economia. “Tenho convicção de que transição energética não é você simplesmente, da noite para o dia, excluir todas as fontes de energia para colocar uma ou outra. É a convivência de várias matrizes. Há bem pouco tempo, nós não tínhamos sequer energia eólica. Hoje nós temos energia eólica e nós continuamos a usar carvão”, afirmou.
Entre linhas: O Ceará foi pioneiro da energia eólica brasileira, mas hoje ocupa posição inferior à de estados como Rio Grande do Norte e Bahia na corrida das renováveis. Enquanto isso, busca se reposicionar na nova economia dos data centers, da inteligência artificial, do hidrogênio verde e do gás natural.
A pergunta: Qual é a estratégia que conecta todas essas agendas?
Em uma frase: Enquanto Brasília discute o futuro da energia brasileira, o Pecém continua recebendo investimentos bilionários — e o Ceará ainda precisa explicar qual papel pretende desempenhar nessa nova geografia econômica.







