Quando a fé se transforma em disfarce e o lar se torna o primeiro altar da crueldade.
Há crimes que assassinam duas vezes: primeiro a vítima; depois, a própria ideia de humanidade.
No último domingo, justamente o dia em que milhões de famílias se reúnem à mesa e seguem para o culto ou para a missa, um menino de apenas três anos encontrou a morte dentro da própria casa. O homem, cidadão estadunidense que se apresentava como missionário, confessou tê-lo espancado. O motivo alegado é tão insignificante quanto monstruoso: a criança não lhe teria dado “bom dia”.
O púlpito nunca foi garantia de virtude. Também abriga impostores. Há quem pregue a compaixão e pratique o inferno dentro de casa. A religião pode elevar o homem, mas também pode servir de esconderijo aos perversos. Alguns transformam a fé em máscara, usando a Bíblia não para iluminar consciências, mas para ocultar a própria escuridão.
O fato de o acusado ser estrangeiro exige uma investigação rigorosa de seus antecedentes. A sociedade tem o direito de saber se este foi um ato isolado ou se a violência já fazia parte de sua trajetória. A imprensa já noticia um histórico de violência doméstica envolvendo a família. As investigações também apontam que a mãe tinha conhecimento das agressões. Se, de fato, acobertou os espancamentos contra os próprios filhos, sua omissão assume contornos de gravidade extrema. Se existe um passado criminoso, ele precisa vir à luz.
Em sua defesa surgirão os profissionais da indulgência. Dirão que ele não queria matar o filho. Pouco importa. Quem espanca brutalmente uma criança de três anos assume o risco de matá-la. O Direito Penal chama isso de dolo eventual. A consciência moral chama de barbárie. Um pai que transforma o próprio filho em vítima da sua fúria destrói mais que uma vida: golpeia a própria civilização.
Continuo defendendo a Pena de Morte para assassinos dessa natureza, onde ela seja prevista em lei e aplicada após um processo justo, com provas irrefutáveis e ampla defesa. O Brasil fez outra escolha. Restará a prisão. Mas, diante de um crime como este, qualquer outra punição deixa a amarga sensação de insuficiência.
Sêneca dizia que “a crueldade é o vício dos corações mais ferozes.” Essa frase sempre me acompanha. Talvez porque, ainda garoto, tenha visto pais descarregarem violência sobre filhos pequenos. Eu nada podia fazer. As décadas passaram, mas algumas cenas jamais deixaram minha memória. Crimes como este não despertam em mim apenas revolta. Rememoram antigas feridas.
A criança morreu pelas mãos de quem tinha o dever legal e moral de protegê-la. A Bíblia estava em suas mãos; a violência, em sua alma. O inferno não estava nas páginas que dizia anunciar, mas no coração que jamais conseguiu esconder.
Os falsos profetas nunca desaparecem. Apenas encontram novos altares. A única pregação que realmente os denuncia é o sangue de suas próprias mãos. Toda máscara um dia cai; a verdade, essa, nunca se ajoelha diante do impostor.

*Walter Pinto Filho é Promotor de Justiça em Fortaleza, autor dos livros CINEMA – A Lâmina que Corta e O Caso Cesare Battisti – A Confissão do Terrorista. www.filmesparasempre.com.br






