
Na última reunião ocorrida no COPOM (Comitê de Política Monetária), o Banco Central do Brasil baixou em 0,75 pp (pontos percentuais) a taxa básica de juros da economia brasileira, chegando ao inédito valor de 3% ao ano. Mas o que isso significa efetivamente para a economia brasileira? Falando primeiramente sobre as causas dessa redução, a mais óbvia é a queda abrupta da atividade econômica, ou seja, a queda dos juros é uma medida para tentar diminuir o custo dos financiamentos das empresas e estimular de alguma maneira a economia, apesar de todas as restrições sanitárias.
Mais importante do que as causas são as consequências dessa queda na taxa de juros, que são ambíguas e alteram fundamentalmente as características da economia nacional. Um primeiro fator negativo é que, com taxas de juros mais baixas, o mercado torna-se menos atrativo para investidores aplicarem seus recursos no Brasil, o que causa uma saída de capitais do mercado financeiro, impactando em uma desvalorização do real em relação ao dólar, que já está na casa de R$ 5,70.
Outro aspecto negativo, e diretamente relacionado ao dólar, é o aumento do custo das importações, o que em um cenário de recessão econômica torna mais difícil repassar o aumento dos custos de produção das empresas em reais para seus consumidores, impactando diretamente na margem de lucratividade das empresas que possuem insumos diretamente ligados à importação.
Hoje, devido ao baixo nível de consumo ocasionado pelo isolamento social, o risco inflacionário é bastante improvável. Entretanto, quando a economia nacional reabrir nos próximos meses, haverá um risco real de que essa desvalorização cambial impacte diretamente nos custos nacionais e assim o nível de inflação poderá vir a retornar a patamares mais altos.
Outro risco, ainda que distante, porém não desprezível, é a possibilidade de investidores passarem a comprar dólar ou euro como reserva de valor. Como nossa taxa de rendimento da renda fixa estará muito próxima da inflação nacional, existe a percepção da possibilidade de que a poupança em moedas mais fortes ao longo do tempo poderá ampliar o portfólio das pessoas e efetivamente as façam obter ganhos reais, tendo em vista que investimentos em fundos de renda fixa ou títulos em CDB tornar-se-ão irrisórios.
Utilizando uma visão geopolítica, as empresas brasileiras estarão baratas em relação às outras sob o ponto de vista cambial e, aliado à crise financeira e à diminuição do crédito, poderá haver um movimento forte de M&A em setores estratégicos e empresas brasileiras voltadas para infraestrutura e tecnologia, o que seria, ou será, desfavorável para a política internacional brasileira.
Contudo, existem vantagens dentro deste novo cenário. O país se torna mais competitivo no comércio internacional, ainda que artificialmente, pois não há uma melhora na produtividade nacional, mas, sim, uma vantagem cambial. Aliado a um consumo crescente de alimentos, nossas reservas internacionais tendem a aumentar mais ainda e nossa balança comercial, a acumular ‘superavits’.
Internamente, já acompanhamos mês a mês o aumento dos investidores, principalmente pessoas físicas, para o mercado financeiro brasileiro e para operações de crédito privado, o que estimula e facilita no longo prazo crédito para empresas nacionais e estimula nosso mercado de capitais, que ainda é limitado, apesar de sermos a oitava maior economia do planeta.
A taxa de juros mais baixa, em 3%, deverá incentivar investidores para que mais recursos sejam alocados dentro da economia real no pós-crise, o que será fundamental para diminuir o nível de desemprego e compensar de alguma maneira o grande volume de fechamento de negócios que certamente ocorrerão nos próximos meses.
No âmbito da dívida pública, há uma diminuição do custo da rolagem da dívida, ou seja, o volume de juros atrelado à taxa Selic, que é paga todo ano, é menor. Se isso ocorre, significa que existirão mais recursos dentro do orçamento público anual para investimentos. Lembramos que países com taxa de juros muito baixa, como o Japão e a Suíça, conseguem rolar suas dívidas crescentes sem problemas, pois o serviço da dívida é muito barato.
No “frigir dos ovos”, a política macroeconômica do Banco Central do Brasil vem mantendo o tripé macroeconômico baseado no câmbio flutuante, nas metas de inflação e da meta fiscal em busca do ‘superavit’ primário, mesmo que no curto prazo não seja possível alcançar. Esse modelo deve reforçar o “colchão de garantia” das reservas internacionais em dólar contra quaisquer ataques especulativos, afastando qualquer possibilidade de crise cambial.
A equipe econômica mantém com essa política o projeto iniciado ainda em 1999, com a implantação de plano real, que foi um dos mais bem elaborados projetos de estabilização econômica do século XX. Essa eficiência e a manutenção da nossa tão respeitada política macroeconômica só serão possíveis a um longo prazo e se, após o período da Covid-19, nos comprometermos com um novo conjunto de reformas, agora muito mais duras do que seriam se fossem implementadas no ano passado, pois deveremos alcançar em 2021 um nível de dívida alcançando 90% do PIB, contra 75% no início de 2020.
Para o Governo, a ordem liberal hoje é gastar para a manutenção da renda e financiamento das empresas. Para 2021, a ordem deve ser reformar o Estado, reformar os Tributos e reformar as regras.







