Sim, é a economia!

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Por Ricardo Alcântara*
Em seu mais recente artigo, o jornalista Fábio Campos coloca, com a clareza e a pertinência de sempre, a pergunta que ele não quis calar: por que um governo que está recuperando a economia do país é tão impopular?
A pergunta procede: é certo que a conjuntura econômica é, sempre foi e será o principal fator a influenciar o estado de espírito de uma sociedade quanto a seus governantes. Boas intenções não edificam andores.
Sim, a economia que garantiu o prestígio de dois mandatos para Fernando Henrique e o sepultou sob os escombros de uma recessão brutal e do desemprego ao fim de seu segundo governo.
A economia que construiu em torno de Lula o mito popular da infalibilidade e fez o mandato de sua sucessora esmagado sob as patas de uma desastrada gestão, por ela batizada de ‘nova matriz econômica’ (ora veja!).
Então, repito a pergunta de Fábio Campos: por que um presidente que toca, sob circunstâncias políticas das mais difíceis, um programa seguro de recuperação econômica tem sua imagem inundada de impopularidade?
Dessa vez, o núcleo do problema é de natureza política, como todos sabem, mas há, sim, ainda aí, a influência forte de fatores econômicos. Este artigo, que já se alonga em sua introdução, pretende arriscar alguns palpites.
Obviamente, persistem muitas contestações – e persistirão por muito tempo ainda – sobre a legitimidade do governo Temer. E aqueles que criticam o impeachment não o fazem, necessariamente, por serem ‘lulistas’.
Aqui, a começar por mim. Tomo a qualificação do episódio com o termo ‘golpe’ como mera bravata, um afronta a conceitos elementares, mas não ignoro a excessiva influência política da drástica decisão. Aquilo foi uma vulgaridade.
Outro fator político de primeira ordem na definição do problema é que os quadros principais do governo Temer – os homens do presidente – estão na fila de atendimento prioritário aos suspeitos dos piores crimes.
Pode-se afirmar, sem margem de erro, que esse governo aí se sustenta menos pelos resultados ainda modestos que produz na economia e muito mais pelo instituto do Foro Privilegiado.
A verdade é que Temer governa sob o império da impunidade, tolerado pelos agentes de decisão do país, tanto no meio jurídico e parlamentar quanto no ramo produtivo, pela forte razão de que a recuperação econômica precisa dele.
Sim, vou repetir a heresia para que o Santo Ofício ideológico se assegure de que ela foi pronunciada: nos termos em curso, a recuperação da economia só poderia ser levada a cabo por alguém que topa ser odiado, como Temer.
Logo, a impopularidade do presidente não se dá ‘apesar da economia’, mas também devido a fatores gerados por sua condução, sobretudo no tocante a excessos embutidos nas reformas trabalhista e previdenciária.
Portanto, é, também, a economia, sim: a primeira, Trabalhista, realizou atualizações necessárias, mas trouxe em seu caudal algumas armadilhas que levam os cordeiros à beira da poça onde as raposas bebem.
Quanto a alguns termos da reforma da previdência, desnecessário se alongar demais: nem a base aliada do governo no congresso ousa assumir aquela coisa como algo que a sociedade brasileira deva suportar.
Ora, ora. Se não é fácil a população digerir a má notícia de que mais uma vez pagará sozinha a conta, ainda mais difícil é convencê-la a fazê-lo enquanto homens de estado se movem frenéticos com malas de dinheiro para todo lado.
Em resumo, a legitimidade questionada do governo, agravada pela descompostura de quem ao povo pede mais sacrifícios, contamina a popularidade do governo que, malgrado tudo isso, recupera a economia.
Há, por fim, outro importante aspecto a ser lembrado: o governo ainda não completou o serviço. No momento, há mais projeção sobre os efeitos positivos da recuperação econômica do que propriamente resultados.
Certamente, quando os assalariados começarem a sentir no bolso aquilo que agora apenas se desenha, é provável que eles reservem para a biografia do presidente Temer algum vestígio de condescendência e gratidão.
Porque sim, ‘estúpido, é a economia’.
Ricardo Alcântara é escritor, publicitário e filiado à Rede Sustentabilidade

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