Vislumbrando uma nova ciência pós Covid-19, por José Carlos Parente

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José Carlos Parente de Oliveira é graduado em Física pela Universidade Federal do Ceará, mestre em Física pela Universidade Federal do Ceará, doutor em Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Pós-Doutorado pela University Of Wyoming (EUA). Atualmente é Professor Associado da Universidade Federal do Ceará, ex-avaliador Institucional do INEP e ex-presidente da Câmara de Educação Superior do Conselho de Educação do Ceará.

Por José Carlos Parente
Post convidado

Mais uma vez e de forma dramática o papel e o lugar da ciência no mundo real são colocados na ribalta e são duramente criticados e questionados, não só pela estreiteza das soluções aconselhadas nesta pandemia, mas, e principalmente, pelo pânico que elas acabaram provocando na humanidade.

Não muito distante no tempo os desastres nucleares de Three Mile Island, Chernobyl e Fukushima representaram o colapso de um crescente estado tecnológico e sofisticado que emergiu da combinação da infalibilidade arrogante da ciência e da tecnologia, da incompetência de gestões autoritárias e da minimização e encobrimento mútuos de erros e exageros dos especialistas e autoridades governamentais.

Na área da epidemiologia as falhas e os erros passados da “ciência” não foram nem poucos, nem menos significativos: pesquisadores ingleses mundialmente famosos – fortemente envolvidos com o pânico e os desastres humanos, sociais e econômicos atuais – projetaram em seus computadores e alardearam para a humanidade, nos últimos vinte anos, catástrofes que não se realizaram a exemplo da “carnificina por modelos matemáticos” ocorrida em 2001 no Reino Unido com o abate de milhões de reses; e também nas epidemias das febres aviária (H5N1, em 2004) e suína (H1N1, em 2009). Esses mesmos pesquisadores projetaram em 2020 catástrofes apocalípticas que somente seriam evitadas se medidas draconianas de restrição à liberdade de pessoas e comunidades fossem impostas em nome da salvação de vidas. Somente a guisa de exemplo de tais projeções apocalípticas as vítimas no Ceará, São Paulo e Brasil seriam no cenário com mais restrições (uso de máscara, isolamento social e fechamento de escolas, indústria e comércio) 17.600, 92.000 e 460.000 mortes, respectivamente!

Atualmente, em diversos locais pelo mundo, as medidas restritivas impostas são questionadas no dia a dia da ciência, da política e da sociedade: as medidas mais restritivas não só se mostraram desnecessárias, como são responsabilizadas pelo aumento de mortes em outras áreas sensíveis da saúde e “esquecidas” durante a atual pandemia (mais depressão, mais suicídios, mais mortes por cânceres, milhões infectados por outros vírus).

Durante o desenrolar da pandemia a “ciência” não se mostrou tão certa e única, muito diferente daquele carismático lugar que ocupava em que erros são inconcebíveis e mesmo impossíveis. Na verdade, nós assistimos várias visões científicas concorrentes que se confrontavam quer em diferentes países quer no mesmo país. Nós também assistimos a espetáculos midiáticos de governantes nervosos, ombreados por cientistas que lhes emprestavam “segurança e sabedoria”, por ocasião de seus discursos retóricos a anunciar, “convictos e autoritários”, que as medidas “duras”, mas “necessárias” se originavam da “ciência”.

Imediatamente, surgiram debates em todo o lugar sobre a conveniência de cancelar reuniões de massa, isolar grupos de risco, fechar escolas e travar as atividades de produção de bens e subsistência. Esses debates envolveram estudiosos dos mais diversos ramos da ciência: sociólogos, psicólogos, matemáticos, físicos, comunicadores, advogados, estatísticos, entre outros. E esses debates também envolveram epidemiologistas, médicos e sociedades científicas médicas que eram contrários às medidas. Porém, esses últimos não eram ouvidos pelos tomadores de decisão!

Nos debates a ilusão de “porto seguro” que a “ciência” detinha foi desfeita pela exibição de muito desconhecimento e incertezas: não se sabia o tempo de incubação ou a taxa de infecção antes e após os sintomas; não se sabia o comportamento do vírus frente à sazonalidade ou da doença relativa aos diversos grupos populacionais; não se sabia nada sobre a ocorrência de reinfecção ou sobre a conveniência de se buscar a imunidade de grupo; não se sabia o número de reprodução ou sobre a taxa de mortalidade; não se sabia se os casos assintomáticos disseminavam o vírus ou quais as vias de exposição dominantes. Adicionalmente, não se conhecia o tipo de resposta das pessoas e comunidades às medidas restritivas ou se a capacidade industrial instalada responderia às demandas que se apresentavam.

Diante de tamanha ignorância qual a razão para a arrogância de governantes e estudiosos ao dirigir-se às populações? Diante de probabilidades simplesmente inexistentes não seriam os resultados dos modelos apenas adivinhações sofisticadas e caras? Diante de tantas incertezas por que a insensatez foi a grande guia dos operadores oficiais da ciência, ao invés da racionalidade pueril?

Mas, será que os governantes e a ciência realmente foram pegos de surpresa com a Covid-19? A resposta mais próxima da verdade é: não, a Covid-19 não foi uma surpresa total! E estendendo um pouco mais, o próximo coronavírus provocará um estrago ainda maior, caso não se mude o modo de fazer ciência.

Os especialistas em novas doenças infecciosas, NDIs, já previam o surgimento de outro coronavírus de origem animal desde o início dos anos 2010, baseando-se na bem documentada taxa de surgimento de NDIs, que é crescente nos últimos; eles também sabiam da grande e bem conhecida probabilidade de NDIs causadas ​​por vírus de RNA (ácido ribonucleico) de cadeia única originados de animais – cerca de 70% dos eventos recentes de NDIs originaram-se em animais de vida selvagem e que os coronavírus encabeçavam listas de prováveis ​​candidatos a provocar uma NDI: a Síndrome Respiratória Aguda Grave em 2003 e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio em 2012 foram ambas provocadas por novos coronavírus. Adicionalmente, eles conheciam que os morcegos são as mais prováveis fontes de NDI (o que está bem documentado na literatura científica) e também que os caminhos de disseminação de infecções geralmente incluem os conhecidos “mercados úmidos”, muito comuns na China e onde os animais vivos são frequentemente vendidos e abatidos no local.

Todos estes fatos, bem documentados, eram do conhecimento de pessoas que trabalhavam com NDIs, bem antes da Covid-19.  A questão é que pesquisadores nas diversas áreas da ciência, e mesmo na mesma área, normalmente não conversam entre si. Muitas são as razões desses desencontros: luta por financiamento seja estatal ou privado; dificuldades no compartilhamento de equipamentos e ideias; definição de processos de interação; atendimento a processos burocráticos institucionais; definição de responsabilidades e distribuição das atividades; regras rígidas de confidencialidades; partição de direitos de propriedade; características individuais e aspectos culturais, além da conhecida “auto valoração” dos pesquisadores.

Ora, se há dificuldades entre os pesquisadores e grupos de pesquisa entre si, o que dizer da relação entre esses pesquisadores, os políticos e os tomadores de decisão quer cotidianas quer emergenciais? Entre os principais entraves na relação entre estes atores estão: entender e compartilhar os contextos políticos e institucionais que influenciam no processo de tomada de decisão em situações diversas, assim como as pressões organizacionais e burocráticas envolvidas; ser merecedor da credibilidade dos tomadores de decisão para comunicar as evidências que enfatizem as questões metodológicas e resultados da pesquisa; acreditar nos responsáveis ​​pela condução da pesquisa e na adequada relevância da pesquisa em si;  entender e aceitar a influência e legitimidade de pesquisadores e tomadores de decisão na identificação de seus papeis nas diversas áreas políticas.

Como se vê as tarefas de interação que se descortinam são particularmente dinâmicas e complexas e devem, necessariamente, desaguar em novos esquemas de pesquisa organizacional nas diversas instituições de pesquisa e em novos padrões de relacionamentos, de expectativas e de interesses dos atores sociopolíticos que constituem o alvo das aplicações das políticas baseadas em pesquisas científicas.

Em relação aos motivos e interesses dos pesquisadores em participar das interações e mediação entre a “ciência” e outros atores sociais para o uso da pesquisa em política há tensões principalmente relacionadas às seguintes questões: i) os contextos político, econômico e social normalmente são desfavoráveis e instáveis aos pesquisadores que enfrentam intervenções na implementação da pesquisa na política; ii) o tempo, os esforços e a escassez de recursos para a compreensão da dinâmica e dos processos políticos nacionais envolvidos na política científica. Particularmente, o comprometimento institucional oficial à continuidade da pesquisa científica é um ponto fundamental aos processos de implementação da ciência na política; iii) a necessidade de mudanças institucionais e organizacionais nos programas de pesquisa para torná-los adequados e de qualidade, além de estratégicos, na promoção dos resultados de pesquisa; iv) mudanças no sistema de avaliação dos corpos docente e de pesquisadores no desenvolvimento da carreira e que inibem as atividades de utilização de sua pesquisa.

Os pesquisadores têm a percepção que seus esforços para produzir impacto político são subvalorizados pelas universidades ou agências de desenvolvimento e grandes corporações, que adotam colocar no comando das pesquisas pessoal não especializado; garantia do exercício da prudência, bom senso e integridade na conduta adequada dos especialistas que controlam a qualidade da pesquisa, a prevenção de acidentes e a proteção do público.

Se se levar em consideração todos esses aspectos haverá uma ruptura com o passado e um despertar no presente: despertar mundial da ciência na solução de problemas reais às comunidades, principalmente as mais frágeis e desprotegidas. E o novo modo de fazer ciência unira “carnalmente” a prevenção, a precisão, a parceria e a participação.

Ainda há um senão neste novo fazer: a crucial e importante parceria e participação da população.  As convergências e, principalmente, as divergências no novo fazer ciência não podem ser ocultadas do grande público, que detém diferentes histórias e pontos de vista, os quais são fundamentais na melhoria de testes, experimentos, parametrizações e no desenvolvimento de cenários mais realistas e contextualizados localmente.

A nova forma de fazer ciência exige transparência e democracia deliberativa efetiva. A oportunidade para mudar é agora! Ou isso, ou um novo coronavírus chegará e promoverá estragos maiores que os atuais, com completa e total participação dos ditadores de ocasião.

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