Não existe “Nuvem”, existe Território: O recado de Davos e o dever de casa do Ceará; Por Mac Trigueiro

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Quem observou atentamente os discursos em Davos nesta última semana percebeu uma mudança tectônica na narrativa global. A era romântica da tecnologia etérea acabou. Elon Musk e Jensen Huang, CEO da NVIDIA, não subiram ao palco para falar de softwares mágicos, mas para alertar sobre escassez física. O veredito é unânime: a Inteligência Artificial (IA) é, antes de tudo, uma indústria de base. Ela demanda concreto, aço, refrigeração e, criticamente, quantidades colossais de energia. Ou seja, ficou evidente ali que convivemos com um confortável equívoco que dominou o vocabulário da tecnologia por anos que era o de que a “nuvem” seria um lugar etéreo, leve, quase invisível.

Em Davos, a conversa ganhou cheiro de aço e calor de transformador. O ponto central foi simples e duro ao se afirmar que a IA não é uma ideia abstrata, mas sim uma infraestrutura pesada. E, quando tecnologia vira infra, muda também a geopolítica do desenvolvimento. A corrida deixa de ser apenas por quem escreve o melhor código e passa a ser por quem reúne três condições concretas, quais sejam: energia abundante, conectividade de baixa latência e espaço para escala.

Este artigo foi escrito por Mac Trigueiro.

A chamada “nuvem”, portanto, tem CEP. Ela mora em galpões que funcionam como usinas de dados, consumindo energia e exigindo engenharia do entorno. Para o Brasil e, em especial, para o Ceará, isso abre uma janela rara e, ao mesmo tempo, um risco conhecido: ter ativos valiosos (energia renovável e cabos submarinos) e ainda assim capturar pouco valor local. Localização, sozinha, atrai interesse; não garante prosperidade. Para transformar vantagem geográfica em riqueza, é preciso estratégia pública, regras claras e firmeza negocial. Caso contrário, viramos apenas rota: os dados entram, o consumo fica aqui, e o valor agregado se forma em outro lugar.

Caucaia está no centro dessa nova cartografia. Somos a ligação territorial entre a chegada da conectividade em Fortaleza e a expansão industrial no Complexo do Pecém e na ZPE. O “caminho obrigatório” da economia digital cruza o nosso solo. Mas existe um risco real de repetir um velho roteiro: infraestrutura passando em alta velocidade – por dutos de fibra ou linhas de transmissão – sem deixar densidade econômica na superfície. A boa notícia é que ainda dá tempo de desenhar um modelo ganha-ganha, bom para os grandes investidores e, sobretudo, para a população do Ceará.

Por isso, precisamos trazer para o debate público o tema das contrapartidas estruturantes dos grandes investimentos em data centers, como o projeto do Grupo OMNIA/TikTok e outros em negociação. Ações sociais pontuais, embora positivas, não substituem legado físico e tecnológico. O que está em jogo é interesse local e também nacional: infraestrutura compartilhada, competitividade e soberania digital na prática.

A primeira contrapartida é conectividade de verdade. Não faz sentido que o backbone de fibra óptica atravesse Caucaia como um túnel fechado. É indispensável pactuar “pontos de saída” ao longo do trajeto como os CTOs e pontos de troca de tráfego (NAP/IX) para que empresas, universidades e o setor público possam se conectar com qualidade e custo competitivo. Sem essas alças digitais, o município não consegue plugar o seu ecossistema à rede mundial. É assim que se “ilumina” o território e se dá tração ao Partec, já criado por lei, e às empresas locais.

O mesmo raciocínio vale para a energia, que virou o lastro da nova economia. Hoje, a viabilidade de um ativo industrial ou imobiliário depende de potência disponível, redundância e possibilidade de expansão. Reforços de rede, linhas de transmissão e contratos de fornecimento não podem nascer sob medida apenas para o cliente âncora. É papel do Estado e do Município exigir subestações e paradas técnicas dimensionadas para atender também a cidade, o Partec e, no futuro, uma malha de edge data centers (processamento de borda) – condição essencial para reduzir latência e espalhar valor econômico no território.

Se não garantirmos esses acessos, tanto de dados quanto de energia, corremos o risco de formalizar um “colonialismo digital” moderno, uma vez que estaríamos cedendo território e recursos em troca de (apenas) importar o serviço final e a renda qualificada. Autorizar operações dessa escala sem contrapartidas estruturantes é um erro estratégico. Por esse motivo, estamos confiantes que essas contrapartidas serão revisitadas.

O Ceará tem condições de se tornar a “bateria verde” da IA global, em sinergia com a academia e a indústria como os laboratórios da UFC e do IFCE, o Observatório da Indústria da FIEC e o futuro ITA no Estado. Para isso, precisamos do que chamo de “pragmatismo visionário” ou, “ousadia planejada”, desde que com menos discurso e mais entrega por meio de infraestrutura compartilhada, segurança jurídica e um pacto claro de benefícios para a população, medidos em renda, emprego e bem-estar.

Em síntese, o recado que ecoou em Davos, em estilos distintos, mas convergentes, foi o mesmo que aqui defendemos. O gargalo da próxima etapa da IA não é só chip ou algoritmo mas a energia, engenharia do entorno e capacidade de transportar dados com segurança e baixa latência. E a advertência para nós é objetiva no sentido de que antes de faltar computação, pode faltar energia disponível e com acesso em nossas localidades.

Por isso, na energia a lógica é ainda mais decisiva. Potência, redundância e expansão definem quem opera e quem fica na promessa. Linhas de transmissão e arranjos que viabilizam grandes data centers precisam contemplar, de forma pactuada, uma solução de interesse público: uma parada estratégica, com subestação dimensionada não apenas para o cliente âncora, mas para Caucaia e o crescimento esperado da cidade. Isso vale também para a nova onda de data centers menores (edge, ou “de borda”), que aproximam a inferência do usuário, reduzem latência e distribuem oportunidades.

Infraestrutura aberta e compartilhada é o que desejamos porqeu entedenmos que =e dessa forma que se transforma potencial em desenvolvimento e o Ceará já viu isso acontecer em outros ciclos industriais. Sem acesso efetivo a energia e as vias dos transporte dos dados processados, qualquer política de atração de investimentos fica incompleta.

O passo seguinte é fazer com que essa economia se instale aqui, gerando prosperidade, em vez de apenas atravessar o nosso território. Se a IA é a eletricidade do século XXI, Caucaia e o Ceará estão diante do painel de controle das usinas. Cabe a nós assegurar que essa energia acenda, antes de tudo, as luzes da nossa própria casa.

Trigueiro Filho, PhD, Secretário de Ciência, Inovação e Desenvolvimento Tecnológico de Caucaia; Vice-Diretor da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC); Professor de Direito Digital e Direito Econômico; Coordenador do CRIA – Centro de Referência em Inteligência Artificial da UFC; Presidente da Comissão de Data Centers e Cidades Inteligentes da OAB-CE; Pós-Doutor pela USP; Professor Visitante na FIU/EUA; Professor Pesquisador em Stanford/EUA. Eleito “Empreendedor Digital do Ano no Brasil” pela Associação Brasileira de Startups e pela Startup Brasil pelo desenvolvimento do aplicativo “mememória”.

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