Há números para todos os gostos na nova pesquisa Genial/Quaest. E esse talvez seja o principal mérito do levantamento: além da fotografia do momento, ele oferece pistas importantes sobre a disputa que começará de fato nas próximas semanas.
O dado que naturalmente ganha as manchetes é a vantagem de dez pontos de Ciro Gomes sobre o governador Elmano de Freitas. É um resultado expressivo para quem sequer entrou na campanha oficial. O cenário, contudo, difere bastante daquele encontrado pela AtlasIntel em parceria com o Focus Poder, divulgado em 15 de junho, quando Ciro aparecia com 45,8% e Elmano com 44,8%, em empate técnico.
A comparação direta, porém, seria equivocada. As pesquisas utilizam metodologias distintas, realizadas em momentos diferentes. A Quaest faz entrevistas presenciais; a AtlasIntel seleciona entrevistados em ambiente digital. São instrumentos diferentes, capazes de produzir retratos distintos de uma mesma realidade.
Dentro da série histórica da própria Quaest, o quadro é claro: Ciro preservou a liderança, manteve estabilidade em relação ao levantamento anterior e segue à frente em praticamente todos os segmentos do eleitorado. Para quem lidera, estabilidade costuma ser um ativo político relevante.
Mas os números também oferecem argumentos para o Palácio da Abolição.
Elmano inicia a campanha com 52% de aprovação administrativa. Em disputas pela reeleição, a experiência mostra que a aprovação do governo frequentemente se aproxima da intenção de voto à medida que a campanha ganha intensidade. Soma-se a isso outro fator de peso: Lula mantém ampla vantagem no Ceará e deverá ser o principal cabo eleitoral do governador. É um ativo que ainda pode produzir efeitos importantes quando o debate eleitoral migrar da pré-campanha para a campanha propriamente dita.
Há ainda um indicador que chama atenção. Na pesquisa espontânea, aquela em que o eleitor responde sem receber uma lista de candidatos, Ciro registra 15% e Elmano, 13%, em empate técnico. Mais significativo que isso é o contingente de 70% de eleitores que ainda não citam nenhum nome. O dado sugere que boa parte do eleitorado permanece distante da disputa e que o cenário ainda está longe de consolidado.
Outro aspecto relevante é a convicção do voto. Segundo a Quaest, os eleitores de Elmano demonstram hoje maior firmeza na escolha do que os de Ciro. É uma informação que dificilmente passa despercebida pelas equipes de campanha.
Do lado de Ciro, o desafio vai além de administrar a vantagem numérica. O ex-governador precisará conduzir sua candidatura sem permitir que a polarização nacional se imponha sobre a disputa estadual. Com Lula amplamente favorito no Ceará e Flávio Bolsonaro distante desse desempenho no Estado, interessa ao candidato manter sua campanha concentrada nas questões locais. Veterano, Ciro parece apostar justamente nisso: disputar o Governo do Ceará quase como um outsider da disputa presidencial, evitando um alinhamento formal a qualquer projeto nacional.
Em poucas semanas, o cenário mudará. Entram em campo o horário eleitoral, as estruturas partidárias, a mobilização das ruas, o peso das alianças formalizadas e a força da máquina pública. São variáveis que a pré-campanha apenas antecipa.
A Quaest oferece a fotografia da largada. A AtlasIntel deverá voltar a campo após a oficialização das chapas. A partir daí, será possível observar se a vantagem de Ciro se consolida ou se os ativos políticos de Elmano começam a produzir efeitos mais visíveis.
Até lá, permanece válida uma máxima repetida por políticos de todas as correntes: pesquisa é retrato do momento. E, em eleição, retratos podem mudar rapidamente.







