Data centers: Congresso começa a discutir política para setor que já movimenta mais de R$ 380 bilhões no Ceará

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O movimento. A Câmara dos Deputados começou a discutir uma política específica para uma indústria que ganhou escala no Brasil apenas nos últimos anos: a dos grandes data centers. Foram 12 projetos de lei apresentados por deputados federais até julho de 2026, contra cinco em todo o ano passado. Antes de 2025, não havia registro de propostas específicas sobre o setor, segundo levantamento da TechReg Consultoria.

O debate ganhou dimensão econômica porque os grandes centros de processamento de dados deixaram de ser apenas infraestrutura de tecnologia. São empreendimentos que exigem energia em escala industrial, conectividade internacional, grandes áreas, capital bilionário e segurança regulatória. O Nordeste entrou diretamente na formulação dessa agenda.

O caso que dá dimensão ao debate
No Ceará, a discussão já saiu do papel e chegou ao canteiro de obras. A chinesa ByteDance, dona do TikTok, está implantando no Pecém seu primeiro data center na América Latina, em um projeto anunciado com investimentos superiores a R$ 200 bilhões.

Dois dias antes de a discussão sobre os projetos de lei ganhar repercussão, outro anúncio mostrou a dimensão da corrida. A francesa Voltalia teve aprovado pelo Conselho Nacional das Zonas de Processamento de Exportação (CZPE) um projeto de data center na ZPE do Pecém com R$ 181,7 bilhões em investimentos previstos.

Somados, os dois projetos chegam a mais de R$ 380 bilhões em investimentos anunciados.

Portanto, não é uma parceria entre as empresas, mas sim uma convergência de escolhas. De um lado, uma gigante chinesa de tecnologia. De outro, uma multinacional francesa especializada em energia renovável. As duas escolheram o Pecém para projetos de infraestrutura digital de escala excepcional. (Focus Poder)

Danilo Forte. Foto: Agência Câmara
Danilo Forte. Foto: Agência Câmara

A energia virou questão central
É justamente aqui que a discussão da Câmara encontra o caso cearense. O PL 490/2026 autoriza a União a criar instrumentos de estímulo ao fornecimento de energia limpa e competitiva para data centers instalados nas regiões Norte e Nordeste e institui o selo “Data Center Verde Regional”. O projeto já foi aprovado na Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação e aguarda parecer na Comissão de Minas e Energia. O relator é o deputado cearense Danilo Forte (PP-CE).

O texto prevê, entre outros mecanismos, estímulo a contratos de compra de energia de longo prazo e medidas para facilitar conexão, expansão e estabilidade do suprimento energético.

É uma questão prática para o Ceará
O próprio histórico dos projetos no Estado mostra que não basta haver potencial de geração renovável. É preciso haver rede elétrica disponível para entregar essa energia aos empreendimentos. O Focus Poder já mostrou que projetos bilionários no Ceará chegaram a ficar travados justamente por falta de acesso à rede. Entre eles estava um projeto da Voltalia. (Focus Poder)

O Nordeste quer transformar vantagem energética em política
Outro eixo da ofensiva legislativa é o PL 305/2026, que cria o Programa de Desenvolvimento de Data Centers Regionais, o Prodata Brasil. A proposta procura criar condições para atrair investimentos em infraestrutura digital, com atenção especial ao Norte e Nordeste. O texto tramita junto a propostas que tratam da atração de capital estrangeiro e da expansão da infraestrutura digital.

A lógica é direta: se os grandes data centers precisam de energia abundante e competitiva, o Nordeste quer transformar sua liderança em geração renovável em vantagem para atrair essa nova indústria.

O Ceará tem uma vantagem adicional
O diferencial do Pecém não está apenas na energia. Há a ZPE, o porto, áreas para expansão industrial e a proximidade com Fortaleza, um dos principais pontos de conexão dos cabos submarinos internacionais que chegam ao Brasil. É a combinação que interessa aos grandes operadores: energia + conectividade + território + infraestrutura industrial.

A Voltalia acrescenta uma característica particularmente relevante: a empresa é uma companhia de energia renovável e pretende expandir fontes eólicas e solares para atender à elevada demanda do data center. (Focus Poder)

De exportador de energia a exportador de computação
É aqui que está a principal oportunidade econômica. O Ceará construiu nos últimos anos uma posição internacional associada à geração de energia renovável. A chegada dos data centers abre uma possibilidade diferente: usar essa energia para produzir capacidade computacional e serviços digitais de alto valor agregado.

Em outras palavras, o Estado pode deixar de ser apenas fornecedor de energia para uma indústria e passar a ser plataforma de processamento de dados. O conceito é especialmente relevante para o Nordeste. A região possui uma das maiores concentrações brasileiras de geração eólica e solar. Se conseguir combinar essa vantagem com transmissão, conectividade e segurança regulatória, poderá disputar uma parcela de uma indústria que cresce impulsionada pela inteligência artificial.

A disputa agora é regulatória
O aumento das propostas na Câmara revela que Brasília percebeu o tamanho da oportunidade e também dos riscos. Há projetos para estimular investimentos, facilitar o suprimento de energia e atrair capital estrangeiro.Há também propostas que discutem tributação, recursos hídricos, meio ambiente e até a criação de encargos específicos para o setor.

A disputa, portanto, não é apenas por investimentos. É pelo desenho das regras que determinarão onde esses investimentos serão economicamente viáveis.

O capital que constrói hyperscalers pode escolher entre diferentes países e regiões. Energia cara, conexão lenta, tributação excessiva ou insegurança regulatória podem fazer o investimento mudar de endereço.

O que está em jogo
O Ceará já tem dois números que dão dimensão à corrida: R$ 200 bilhões ou mais no projeto da ByteDance. R$ 181,7 bilhões no projeto da Voltalia. São investimentos previstos, não dinheiro já desembolsado. Mas a escala é suficiente para mostrar que o debate deixou de ser uma aposta abstrata. O que Brasília começa agora a regulamentar, o Ceará já está tentando executar.

O desafio seguinte é maior: fazer com que os data centers não sejam apenas grandes consumidores de energia instalada no Estado. A oportunidade está em criar, ao redor deles, fornecedores, empregos qualificados, centros de pesquisa, empresas de tecnologia, computação em nuvem e negócios de inteligência artificial.

Por que importa
A corrida mundial pelos data centers está criando uma nova geografia econômica. O Nordeste tem energia renovável. O Ceará tem energia, ZPE, porto e conectividade internacional. E o Pecém já atraiu projetos de duas empresas de países diferentes e em setores diferentes.

A pergunta agora não é se o Ceará consegue atrair data centers. Já conseguiu.

A questão é se conseguirá transformar essa primeira onda de investimentos em um novo ciclo de desenvolvimento tecnológico e econômico e se Brasília ajudará ou dificultará esse movimento com as regras que está começando a construir.

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