
O que aconteceu
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) definiu nesta quinta-feira (20) a distribuição do tempo da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão para o primeiro turno. Lula (PT) terá o maior tempo entre os candidatos à Presidência: 5 minutos e 31 segundos por bloco. A coligação que sustenta sua candidatura terá ainda 433 inserções ao longo da programação. O PL terá 4min20s e 339 inserções. No Ceará, a diferença entre os dois principais candidatos ao Governo será muito menor. Elmano de Freitas (PT) deverá ter cerca de 4min17s por bloco, contra aproximadamente 4min03s de Ciro Gomes (PSDB). São apenas 14 segundos de vantagem para o governador.
A matemática, porém, não conta toda a história.
Elmano terá Lula — e uma gestão aprovada
A principal vantagem de Elmano não está nos 14 segundos. Está na possibilidade de associar sua candidatura a Lula, que tem forte aderência eleitoral no Ceará e será, simultaneamente, o candidato presidencial com maior tempo de televisão. Essa associação encontra outro dado relevante: o governo Elmano é aprovado por 54% dos cearenses, segundo o Datafolha. O índice caiu seis pontos desde março, quando era de 60%, mas ainda representa maioria. A desaprovação está em 38%. (Focus Poder)
A avaliação direta da administração é mais dividida: 35% consideram o governo ótimo ou bom, 34% regular e 26% ruim ou péssimo. Ou seja, há um indicatiovo nessa pesquisa (em outras, nem tanto) de que há uma diferença entre avaliar positivamente o governo e aprovar o governador, distinção que importa numa eleição de reeleição. (Focus Poder)
As pesquisas mostram uma eleição mais complexa
Os números de intenção de voto, isoladamente, poderiam sugerir um cenário bastante desfavorável a Elmano. No Datafolha, Ciro aparece com 52%, contra 33% de Elmano. No segundo turno, o tucano tem 55%, contra 37% do governador. (Folha de S.Paulo). Mas o quadro muda significativamente em outros levantamentos.
Na pesquisa AtlasIntel encomendada pelo Focus Poder, divulgada em 12 de agosto, mostra Ciro Gomes aparece com 49,3% contra 44,6% de Elmano de Freitas. Diferença de 4,7 pontos que tirou a disputa do empate técnico (registrada pela mesma empresa de pesquisa em junho passado) e indicou a migração de parte do voto de direita após saída de Eduardo Girão (Novo).
E, nesta quinta-feira, a RealTime Big Data encontrou empate de 44% entre Ciro e Elmano no primeiro turno. No segundo turno, Elmano aparece com 46%, contra 45% de Ciro. A fotografia, portanto, não é uniforme. Ciro lidera no Datafolha, abre vantagem menor no AtlasIntel/Focus Poder e aparece empatado com Elmano na RealTime.
É nesse ambiente que os 54% de aprovação do governador ganham importância.
O ativo que Elmano pode levar para a televisão
A campanha de Elmano poderá explorar uma combinação particularmente favorável: a aprovação do governo, a associação com Lula e o tempo de televisão de ambos. Lula terá 5min31s no horário presidencial. Elmano, cerca de 4min17s no estadual. A diferença é que o governador poderá apresentar sua candidatura como parte de um mesmo campo político que tem Lula como principal referência nacional. E Lula, por sua vez, poderá fazer campanha no Ceará sem precisar construir uma candidatura estadual do zero: seu candidato ao Governo já é o governador em exercício. Isso cria uma espécie de sobreposição eleitoral entre as duas campanhas.
Ciro não tem esse mesmo desenho
Ciro fez uma escolha diferente ao concentrar sua candidatura no Governo do Ceará. Até aqui, sua campanha majoritária não tem um candidato a presidente próprio. E esse desenho tende a permanecer. Isso não significa que Ciro esteja isolado da eleição presidencial. O próprio campo político que o apoia admite a possibilidade de voto cruzado (Lula para presidente e Ciro para governador).
Mas há uma diferença importante entre as duas campanhas. Elmano pode pedir simultaneamente a continuidade de um governo aprovado por 54% e a associação com Lula. Ciro precisa construir uma candidatura estadual capaz de se sustentar independentemente da disputa presidencial.
A questão central da campanha
É justamente aí que o horário eleitoral pode adquirir peso estratégico. Os 14 segundos de vantagem de Elmano sobre Ciro são pequenos demais para, sozinhos, alterar uma eleição. O dado relevante é outro: os dois terão quase o mesmo espaço para falar, mas Elmano dispõe de uma conexão política que Ciro não possui na mesma intensidade.
O governador pode colocar na mesma narrativa três elementos:
- Lula, com 5min31s no horário presidencial e forte presença eleitoral no Ceará;
- o próprio governo, aprovado por 54% dos cearenses;
- a máquina política da reeleição, que lhe permite apresentar a continuidade como escolha concreta.
Ciro terá de responder a essa combinação. E há uma ironia eleitoral interessante: quanto mais forte for Lula no Ceará, maior tende a ser o potencial de Elmano para transformar a eleição presidencial em uma variável da disputa pelo Governo — mesmo que o eleitor possa separar os votos. A possibilidade do voto cruzado, aliás, já está no radar do grupo de Ciro. Mauro Benevides Filho, que coordena seu plano de governo, defende justamente a combinação entre Lula para presidente e Ciro para governador. (UOL Notícias)
O ponto de partida
A campanha começa, portanto, com uma contradição que pode definir boa parte da estratégia de Elmano. O governador está atrás de Ciro em algumas pesquisas, mas seu governo é aprovado pela maioria. Lula tem forte aderência no Ceará, e Elmano é o candidato que pode transformar essa força presidencial em ativo estadual. Ciro, por sua vez, dispõe de praticamente o mesmo tempo de televisão e lidera alguns levantamentos, mas terá de disputar o Governo sem, até aqui, carregar consigo um candidato presidencial.
Análise: É uma diferença que não aparece na tabela do TSE, mas pode aparecer na campanha. Porem, nada do que aqui foi colocado pode importar muito se o eleitorado, formado por uma massa que passa longe das análises pretensiosas, identificar ou desejar que há mudançs a se fazer. Mesmo que não radicais. Tudo o que se coloca hoje pode ser enquadrado no nível da mera especulação. A campnha só vai entrar no cotidiano dos cidadãos aos poucos, a partir do início da propaganda eleitoral gratuita, que, mesmo após as redes sociais chegarem ao reinado da comunicação, ainda marca um rito determinante na disputa.







