Por Gabriel Brandão
Com o início de mais um período eleitoral, o Brasil volta a viver meses de debates intensos, divergências políticas, defesa de candidatos e confronto de ideias. É natural que seja assim. A política faz parte da vida em sociedade, e as eleições representam um dos momentos mais importantes de uma democracia.
O que não deveria ser natural é permitir que a escolha de um candidato transforme adversários políticos em inimigos pessoais.
Nas últimas eleições, vimos famílias divididas, amizades de muitos anos desfeitas, grupos de convivência rompidos e relações afetivas abaladas simplesmente porque alguém decidiu votar diferente. Em alguns casos, a intolerância ultrapassou os limites do debate e deu lugar a ofensas, agressões e ressentimentos que permaneceram muito depois do encerramento das urnas.
É preciso aprender com isso.
Eleições passam. Mandatos terminam. Candidatos vencem e perdem. Partidos mudam, alianças se desfazem e o cenário político se transforma. A família, a amizade e o respeito, entretanto, não deveriam ter prazo de validade eleitoral.
A democracia não existe apenas quando prevalece a nossa opinião. Na verdade, ela revela sua maior importância justamente quando precisamos conviver com quem pensa diferente de nós.
Respeitar o voto do outro não significa concordar com ele. Não significa abandonar convicções, deixar de defender ideias ou renunciar ao debate. Significa reconhecer que, em uma sociedade democrática, ninguém é proprietário exclusivo da razão e todos têm o direito de construir suas próprias escolhas políticas.
A pluralidade de ideias não é um defeito da democracia. É a sua essência.
Um país não se desenvolve quando apenas uma corrente política pode falar, quando somente uma visão de mundo é considerada legítima ou quando quem pensa diferente passa a ser tratado como alguém moralmente inferior. Uma sociedade madura precisa ouvir diferentes vertentes ideológicas, confrontar argumentos e permitir que posições distintas participem da construção das soluções para os problemas coletivos.
Direita, esquerda, centro ou qualquer outra identificação política não podem ser critérios para determinar o valor de uma pessoa, de um amigo ou de um familiar.
É perfeitamente possível discordar profundamente e continuar respeitando. É possível defender candidatos diferentes e sentar à mesma mesa. É possível debater com firmeza sem ofender. Aliás, talvez esse seja um dos maiores exercícios de cidadania que uma eleição pode proporcionar: aprender a discordar sem destruir relações.
Nos próximos meses, certamente haverá discursos inflamados, pesquisas, debates, provocações e uma enorme quantidade de conteúdo circulando pelas redes sociais. Cada cidadão terá suas convicções e seus candidatos. Que tenha também a serenidade de compreender que o outro possui exatamente o mesmo direito.
Ao final, as urnas serão fechadas, os votos serão contabilizados e a vontade soberana da maioria deverá ser respeitada. No dia seguinte, continuaremos vivendo na mesma cidade, trabalhando juntos, frequentando os mesmos lugares, encontrando os mesmos amigos e sentando à mesa com nossas famílias.
E aquele que vencer legitimamente as eleições terá uma responsabilidade ainda maior: compreender que, a partir da vitória, não será representante apenas daqueles que nele votaram, mas de toda a população. Governar democraticamente significa também ouvir, respeitar e representar aqueles que fizeram uma escolha diferente nas urnas.
Da mesma forma, quem não tiver seu candidato escolhido deve reconhecer o resultado legítimo das eleições e exercer seu direito de oposição, crítica e fiscalização dentro das regras democráticas. Democracia pressupõe vitória sem arrogância e derrota sem intolerância.
Por isso, antes de romper uma amizade ou ferir alguém por causa de política, vale lembrar uma verdade simples: o candidato pelo qual você briga hoje talvez nem faça parte da sua vida amanhã. A pessoa que está ao seu lado, provavelmente, continuará fazendo.
Que estas eleições sejam uma oportunidade para reafirmarmos nossas convicções, mas também nossa capacidade de convivência. Que possamos escolher livremente, discordar firmemente e, ainda assim, respeitar profundamente.
Porque eleições passam. Governos passam. A democracia, a amizade, a família e o respeito precisam permanecer.








