Por Paulo Elpidio de Menezes Neto
O “Ex-Libris” é obra de uma celebrada tradição cultivada entre bibliófilos e intelectuais. Grandes escritores e “criadores de conteúdo”, assim como autores e colecionadores anônimos, conservam, até hoje, a prática de construírem o seu Ex-Libris.
Para mim é uma marca ou registro das preferências intelectuais de um leitor confesso de livros. Mostra-se como a “memória que habita os livros”, como descrevia Stefan Zeig. É como se fosse a impressão digital do bom gosto “literário” de alguém… Ou o epitáfio de um faminto comedor de papéis, exposiçǎo perigosa de ideias dissimuladas. Lembra a lápide discreta com os registros ignorados pelos amigos mais indulgentes… Pedro Nava incluiu no registro de seu Ex-libris, o tom fleugmático de um “Adio a morte e dissipo a dor”. Há deles alegres, eruditos, com frequência, performáticos, em latim ou redundantes. Historicamente, nasceram com os copistas para alcançarem a celebridade em edições sucessivas, com a gravura, na Bíblia a que Gutenberg emorestou a dinâmica dos tipos móveis que consagraria a imprensa na produçäo dos livros.
De fato, trata-se de uma expressão de pertencimento: “dos livros de…”. Há deles famosos, roubei espaço entre alguns deles e compus, com o talento de um artista, o registro pretensioso de demarcação de propriedade e uso. Ademais, ao conformar-se na forma e na estética, na gravura e na impressäo, como se fora escultura de papel, o livro impresso, é como se tivesse saído do cinzel delicado do modelador.
O acervo de uma coleção de livros fala das preferências intelectuais do “acumulador” de papéis impressos, provavelmente leitor do que guarda zelosamente. Nas prateleiras das estantes.
O desaparecimento do livro e das suas variantes impressas em papel, fosse possível acontecer tragédia tamanha, apagaria o texto do papel, mas não da tela dos monitores digitais… o que configuraria dupla perda da nossa bagagem intelectual, formatada artesanalmente por Gutenberg…
Segui, no que me toca, o modismo deitado por respeitáveis bibliófilos para valer-me das artes de um programador gráfico brilhante: Geraldo Jesuíno.
Como motivo central do “selo”, escolhi Cervantes, de cujas artes sou usuário perseverante, desde criança.
Picasso, com os traços leves da sua criatividade, a bico de pena, serviu-me de modelo, como foi fixado pelo artista.
Distribuo-o com os amigos como prova do meu apreço pela materialidade do livro, feito escultura de papel e de formas gráficas, outrora reproduzidas a capricho pelos copistas nos “scriptorium” dos mosteiros e das academias.








