
Atlas/Focus Poder, Quaest e Datafolha foram a campo praticamente no mesmo momento, mas usam métodos diferentes de seleção e entrevista. O resultado: Ciro aparece à frente nos três levantamentos, mas a distância para Elmano varia de 2,6 a 11 pontos. A divulgação, em sequência, de Atlas/Focus Poder, Datafolha e Quaest oferece uma situação pouco comum na cobertura eleitoral: três institutos foram a campo praticamente no mesmo período para medir a mesma disputa.
Os resultados convergem em um ponto: Ciro Gomes aparece numericamente à frente de Elmano de Freitas nos três levantamentos. Mas há uma diferença importante e jornalisticamente mais relevante do que simplesmente colocar os percentuais lado a lado: os institutos não entrevistaram exatamente as mesmas pessoas, não utilizaram o mesmo método de coleta e não construíram suas amostras da mesma maneira.
Por isso, os números não devem ser tratados como uma única pesquisa.
O placar
| Instituto | Ciro | Elmano | Diferença |
|---|---|---|---|
| Quaest | 45% | 34% | 11 p.p. |
| Datafolha | 46% | 37% | 9 p.p. |
| Atlas/Focus Poder | 48,4% | 45,8% | 2,6 p.p. |
A variação é expressiva: a diferença entre Ciro e Elmano vai de 2,6 pontos no Atlas/Focus Poder a 11 pontos na Quaest. Isso não autoriza concluir, isoladamente, que um instituto esteja mais próximo da realidade do que outro. Pesquisas eleitorais são estimativas feitas a partir de amostras e metodologias diferentes.
A primeira diferença: como o eleitor é encontrado
É aqui que está uma das diferenças fundamentais entre os três levantamentos.
Atlas/Focus Poder: internet; O AtlasIntel utiliza questionário eletrônico aplicado pela internet, com recrutamento digital aleatório e posterior pós-estratificação da amostra. Na pesquisa cearense, foram ouvidos 1.834 eleitores, entre 28 de agosto e 2 de setembro, com margem de erro de 2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
A amostra é ajustada posteriormente para características do eleitorado, como sexo, idade, escolaridade e nível econômico. É, portanto, uma pesquisa que não depende da abordagem física do entrevistado por um pesquisador na rua ou dentro de sua casa.
Datafolha: ponto de fluxo
O Datafolha utiliza entrevistas presenciais em pontos de fluxo populacional. O instituto sorteia municípios, bairros e pontos de abordagem e trabalha com cotas proporcionais, especialmente de sexo e idade, com referências do IBGE e do TSE. O entrevistado é abordado presencialmente e responde ao questionário.
Na pesquisa divulgada em 3 de setembro, foram entrevistadas 1.204 pessoas entre 31 de agosto e 3 de setembro, com margem de erro de 3 pontos percentuais.
Quaest: domicílio
A Quaest adota outro caminho: entrevistas pessoais, presenciais e domiciliares. O pesquisador vai até o domicílio selecionado e aplica o questionário. O instituto utiliza amostra representativa do eleitorado e considera variáveis como sexo, idade, renda e escolaridade. Foram 900 entrevistas, também entre 31 de agosto e 3 de setembro, com margem de erro de 3 pontos percentuais.
QUADRO: três pesquisas, três desenhos
| Característica | Atlas/Focus Poder | Datafolha | Quaest |
|---|---|---|---|
| Coleta | Internet | Presencial | Presencial |
| Local da entrevista | Ambiente digital | Pontos de fluxo | Domicílio |
| Entrevistados | 1.834 | 1.204 | 900 |
| Campo | 28/8 a 2/9 | 31/8 a 3/9 | 31/8 a 3/9 |
| Margem de erro | ±2 p.p. | ±3 p.p. | ±3 p.p. |
| Confiança | 95% | 95% | 95% |
| Contratante | Focus Poder | O POVO | TV Verdes Mares |
A segunda diferença: tamanho da amostra
Também há uma diferença relevante no número de entrevistas. O Atlas/Focus Poder ouviu 1.834 pessoas, contra 1.204 do Datafolha e 900 da Quaest. Isso se reflete na margem de erro máxima informada: 2 pontos no Atlas, contra 3 pontos no Datafolha e na Quaest. Mas é importante não cometer um erro comum: uma amostra maior não significa automaticamente uma pesquisa mais correta.
O tamanho da amostra influencia a precisão estatística, mas a qualidade de uma pesquisa depende também do desenho amostral, da seleção dos entrevistados, da ponderação, da execução do campo e de outros procedimentos. A própria explicação metodológica do Datafolha ressalta que a representatividade da amostra é tão importante quanto seu tamanho.
O que efetivamente muda entre as pesquisas?
O comportamento de Ciro é relativamente concentrado:
45% na Quaest → 46% no Datafolha → 48,4% no Atlas. A variação é de 3,4 pontos entre o menor e o maior resultado. Com Elmano, a dispersão é maior:
34% na Quaest → 37% no Datafolha → 45,8% no Atlas.
São 11,8 pontos de diferença entre os extremos.
É isso que produz as três fotografias.
No Atlas/Focus Poder, Ciro tem 48,4% e Elmano 45,8%. A diferença de 2,6 pontos é superior à margem de erro individual de 2 pontos, portanto não é tecnicamente correto chamar esse resultado de empate técnico apenas porque os intervalos individuais de ±2 pontos se sobrepõem? Aqui é necessária precisão: o conceito de empate técnico não deve ser reduzido mecanicamente à diferença ser menor que uma margem de erro isolada. O correto é considerar a incerteza estatística da diferença entre estimativas. A divulgação do levantamento, contudo, classificou o cenário como empate técnico.
No Datafolha, são 46% contra 37%.
Na Quaest, 45% contra 34%.
O período de campo é praticamente o mesmo — mas não idêntico
Esse detalhe também precisa entrar na leitura.
| Instituto | Início | Fim |
|---|---|---|
| Atlas/Focus Poder | 28/8 | 2/9 |
| Datafolha | 31/8 | 3/9 |
| Quaest | 31/8 | 3/9 |
O Atlas começou três dias antes dos outros dois e terminou um dia antes. Datafolha e Quaest fizeram a coleta exatamente no mesmo intervalo informado: 31 de agosto a 3 de setembro. Isso reduz a possibilidade de explicar toda a diferença por uma mudança brusca do eleitorado entre as pesquisas. Ao mesmo tempo, não elimina o efeito do período: uma campanha eleitoral está em movimento permanente, e pequenas diferenças de datas podem incorporar acontecimentos distintos.
E há uma cautela fundamental: não comparar institutos como se fossem uma série histórica
O Datafolha, por exemplo, caiu de 52% para 46% para Ciro e foi de 33% para 37% com Elmano em relação à rodada anterior. Mas o próprio levantamento ressalva que a comparação do primeiro turno não é direta porque houve alteração no quadro de candidatos, com a saída de Pedro Brito e a entrada de Vera Lúcia e Ieri Braga. Sim, são candidatos de baixa expressão, mas é preciso considerar.
No Atlas/Focus Poder, por sua vez, a série do instituto mostra Ciro passando de 49,3% para 48,4% e Elmano de 44,6% para 45,8% na comparação com a rodada anterior. A Quaest informa que suas pesquisas anteriores foram realizadas em contexto de pré-campanha e com composição diferente de candidaturas. Por isso, também recomenda cautela na comparação direta.
A regra jornalística é simples: evolução deve ser analisada dentro da série de cada instituto. Cruzar percentuais de institutos diferentes como se fossem medições sucessivas do mesmo instrumento pode produzir uma falsa tendência.
O dado que merece atenção na Quaest
A pesquisa divulgada hoje acrescenta uma informação que ajuda a entender por que uma eleição pode apresentar fotografias tão diferentes: 53% dos entrevistados não declararam candidato na espontânea. Na estimulada, quando os nomes são apresentados, Ciro tem 45% e Elmano 34%. Na espontânea, são 24% e 19%. Essa diferença mostra que parte relevante do eleitorado ainda depende da apresentação dos nomes para declarar uma preferência — e uma parcela expressiva ainda não escolheu um candidato espontaneamente.
A leitura jornalística das três pesquisas
O dado comum é objetivo: Ciro aparece numericamente à frente de Elmano nas três pesquisas divulgadas nesta semana. O que não é comum é o tamanho dessa diferença. O Atlas/Focus Poder registra o cenário mais próximo entre os dois: 48,4% a 45,8%. O Datafolha apresenta uma distância intermediária: 46% a 37%. A Quaest registra a maior diferença: 45% a 34%.
A explicação não deve ser procurada apenas em uma suposta mudança do eleitorado. As pesquisas estão medindo praticamente o mesmo momento, mas por caminhos diferentes. Uma entrevista o eleitor pela internet; outra, em pontos de circulação; outra, dentro dos domicílios. Há diferenças no tamanho da amostra, na margem de erro e no desenho de seleção e ponderação.
Por isso, a notícia mais precisa não é dizer que “uma pesquisa contradiz a outra”.
As três pesquisas oferecem estimativas diferentes para um mesmo universo eleitoral e convergem quanto à ordem dos dois primeiros colocados, mas divergem significativamente quanto à distância entre eles.
É essa divergência metodológica e estatística — e não apenas o placar nominal — que precisa ser levada em conta na leitura da corrida pelo Governo do Ceará.

A tese do cientista político Andrei Roman, CEO da Atlasintel, sobre as pesquisas presenciais
Para o CEO da AtlasIntel, pesquisas feitas presencialmente (na rua ou nos domicílios) podem incorporar um efeito que não existe da mesma forma nas pesquisas digitais: a influência da interação entre entrevistador e entrevistado.
Roman argumenta que o eleitor pode moderar ou até esconder sua preferência real diante de outra pessoa, por constrangimento, receio de julgamento ou desejo de produzir uma resposta socialmente mais aceitável. Na visão dele, esse efeito seria particularmente relevante quando se trata de candidatos ou posições politicamente polarizadoras.
No caso das entrevistas em pontos de fluxo, Roman acrescenta outra possível fonte de distorção: quem está disponível para ser entrevistado na rua não necessariamente representa, na mesma proporção, todo o eleitorado. Ele cita, por exemplo, pessoas que fazem seus deslocamentos exclusivamente de carro e, portanto, têm menor probabilidade de serem abordadas nos locais onde as entrevistas são realizadas. Como renda e comportamento eleitoral podem estar associados, essa seleção poderia afetar a composição da amostra.
Em síntese, a tese de Roman é que a pesquisa presencial pode enfrentar dois problemas distintos: o eleitor pode não revelar integralmente sua preferência por causa da presença do entrevistador e, nas pesquisas de rua, determinados grupos podem ter menor probabilidade de serem encontrados.
A ressalva jornalística é importante: essa é a posição metodológica defendida por Roman e pela AtlasIntel, não um consenso de que pesquisas presenciais sejam necessariamente mais sujeitas a erro. Pesquisadores e institutos que utilizam entrevistas presenciais contestam ou relativizam essas críticas.







