Domingo meu parente saiu de casa sozinho para ir ao supermercado. Até aí nada demais. Um parente sendo recebido como hóspede, depois de mais de uma década morando distante, é algo normal. Só que ele está em seus bem vividos 80 e tantos anos, e o que conhece dessa nova cidade é quase nada.
Vestiu-se bem, como costumavam fazer os homens bem-educados. Calça comprida preta, camisa social de mangas compridas, passada para dentro da calça, sapatos pretos, um boné protegendo a cabeça do ardor do nosso sol. Como era prevenido, levava em mãos sua própria sacola de compras.
Insisti em acompanhá-lo, em vão: não precisava da minha ajuda. Tinha entendido direitinho onde ficava o supermercado – primeira rua à direita, segue em frente alguns quarteirões, novamente à direita, e lá estava em imponência e glória o farto palácio dos alimentos.
Uma hora depois ele não havia retornado. Nem duas horas depois. Quando chegou, parecia outro homem.
Retomando o fôlego, parado no meio da sala, a camisa molhada de suor, cercado pelas compras que tinham rolado para fora da sacola, confessou em um fiapo de voz: havia se perdido na volta para casa.
Pelo que contou, o descaminho começara na saída. O porteiro indicara a esquerda, e mais na frente à esquerda. Alcançara o outro extremo do supermercado, deliciara-se cerca de meia hora escolhendo suas frutas e legumes, e concluído o pagamento, parado na porta de entrada, erguera a vista para o mundo desconhecido que se abria à sua frente.
As instruções que recebera de nós não mais se aplicavam.
Endereço e telefones de contato estavam no celular – que não levara por medo de assalto. Conseguira gravar na memória apenas o nome da rua, e saíra perguntando a um e a outro a direção correta. Sua sacola, pesada com as compras, não conseguia mais ser sustentada por seu braço sob o sol de quase meio-dia. Tentou caminhos arrastando a sacola em calçadas desiguais, sobre um asfalto hostil que não perdeu tempo em destruir o plástico. Em sua via-sacra, ali mesmo, na rua, as compras se espalharam pelo chão.
Contando sua agonia na sala ele parecia ter encolhido, fisicamente diminuído de tamanho. Não era mais aquele senhor autossuficiente que saíra horas antes. Parecia mais com uma criança perdida, como nos transformamos todos nas cidades estranhas, distantes de nossos referenciais. Um pesadelo que espelha nosso inconsciente coletivo.
Uma senhora que seguia caminhando na direção da praia, com marido e filhos, parou para ajudá-lo a colocar as compras de volta na sacola rasgada. Um nó firme nas alças, e a instrução para levar a sacola pelo lado rasgado solucionaram o problema. E não só isso. Ela segurou o braço dele como se fosse o de um pai, ou de um avô, e disse que ia acompanhá-lo até encontrar o prédio certo. Caminharam algum tempo para um lado e para outro da rua, até que ele, em um suspiro de alívio reconheceu o edifício.
Enquanto bebia um copo d´água, sentado no sofá, contando e recontando sua angústia, ele se arrependera de uma única coisa: não perguntara o nome da senhora que o auxiliara, nem como seria possível agradecer depois. Ouvira quando ela pedira ao marido e aos filhos que seguissem até a praia e esperassem. Ajudara meu cunhado, um ilustre desconhecido, por pura e exclusiva boa vontade.
Um anjo da guarda, ele repetia admirado, refazendo-se aos poucos. Um anjo da guarda surgido quando ele menos esperava, e que o conduzira de volta ao ambiente familiar. Ele, um homem calejado em se defender de abordagens indesejadas, que crescera e envelhecera atento a golpes vindos de estranhos, não estava preparado para atos assim, de injustificada gentileza.
O que deu razão à lágrima discreta que enxugou com o punho da camisa, e ao pedido que me fez, para divulgar ao máximo seu agradecimento: quem sabe se essa mensagem não chega aos ouvidos da senhora que o ajudou em um domingo de manhã, nas proximidades do clube Náutico. A ela encaminhamos o desejo de uma vida de felicidades, e que sirva de exemplo para provar que sempre vão continuar existindo pessoas boas, dispostas a praticar boas ações.
Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







