Dívida social; Por Angela Barros Leal

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Ele possui um desses nomes arcaicos, quase sempre herdados de avós ou bisavós, nomes que relembram glórias antigas em impérios extintos. É um estudioso, um difusor de História com H maiúsculo, à vontade em um patamar de conhecimento incontáveis degraus acima.

O fato de não morar entre nós dá aos que conhecem o nome dele uma certa superioridade, confirmada por sua presença física: quando se ergue das cadeiras, dos sofás, das poltronas, e desdobra sem pressa as articulações da coluna, e alonga as pernas, e levanta a cabeça, a postura final quase demanda reverência por parte do comum dos mortais.

Pela opção de ensinar em paragens distantes, deve ter se habituado a uma cultura que não é nossa em termos de atendimento à tão cobrada dívida social, de oferecer um retorno material ou cultural ao lugar que nos serviu de berço, ou que possibilitou a oportunidade de crescimento.

Conceito que a nós, sobreviventes de misérias, nos parece tão alheio como seria vestir um casaco de lã sob o sol do meio-dia.

Por exemplo: quem de nós é capaz de gastar as próprias férias internando-se em uma repartição pública – em um arquivo, por exemplo –, dedicando-se voluntariamente a restaurar documentos antigos? Qual de nós aceitaria entrar pela manhã e sair no fim da tarde de uma sala burocrática, desconfortável, recuperando papéis quebradiços, amarelados pelo tempo, fazendo isso por livre e espontânea vontade?

Quem repetiria vezes sem fim o processo de colocar uma página em branco entre duas páginas de um volume encadernado, de grande porte, para facilitar a identificação dos pontos onde o papel voltou a ser árvore, a ser folha, quebrando-se em minúsculos fragmentos escuros, e com ajuda apenas de uma tesourinha e de uma fita adesiva adequada ao ofício, trazida do país onde ele reside, tentar recuperar o que o tempo tratou de destruir?

Qual dentre nós teria a santa paciência de buscar, um a um, com a ponta do dedo, os minúsculos pedaços quebradiços do papel, aglomerados no canto interno da encadernação dos documentos, reposicioná-los na posição original tendo por guia a sinuosidade das letras cursivas, unindo os retalhos com a precisão cirúrgica de um quebra-cabeças centenário?

E findo isso, quem se levantaria incontáveis vezes da cadeira, desdobrando coluna, braços, pernas e articulações para fotografar as páginas refeitas, prontas outra vez para serem folheadas, as emendas quase invisíveis dando condições de leitura aos interessados, os documentos voltando à vida para os pesquisadores de hoje e do futuro?

Não, não parece ser essa a nossa formação.

Não soa aos nossos ouvidos descrentes como “coisa nossa”. Nem como um sinal de “brasilidade”. Muito menos como “um índice do nosso povo”, parodiando Jáder de Carvalho. Registrar os danos que observamos no material arquivado e entrar em modo de queixa parece ser nosso instinto mais natural.

Destaque-se que ele, nosso personagem, o Cavaleiro Andante dos indispensáveis restauros, após concluir seu trabalho e partir para sua terra de adoção, ainda executa um golpe de impacto junto ao nosso cínico coração: escaneia e reúne em um HD externo todas as imagens do material que conseguiu recuperar, ao longo de dez anos, e o disponibiliza ao público.

Não. Decididamente não parece ser essa a nossa formação.

Agora o HD se encontra lá, no Arquivo Público do Estado do Ceará, guardando mais de 300 livros tratando da nossa História no período entre 1700 e 1936. Registros dos passaportes de escravizados, arrolamento da população, os livros dos sepultados – todo um rico acervo solitariamente digitalizado está acessível a quem o queira copiar em um pen drive.

Sei que existem outros que realizam missões assemelhadas, movidos pela força da boa vontade. Nosso historiador de nome nobre classifica seu esforço simplesmente como o retorno de uma “dívida social” que sente ter com o Ceará.

Licínio, pelo que vejo temos muito a aprender.

 

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

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