Caso Pinto Martins: mais privatizações, por favor

COMPARTILHE A NOTÍCIA


Por Fábio Campos, no O Povo deste domingo
fabiocampos@focuspoder.com.br
Quanto menos estatais, menores as chances de corrupção. Certamente, poucos duvidam da sentença. O motivo é óbvio: como braços do Estado, as empresas estatais são capturadas pela política, que as contamina com os sempre questionáveis interesses dos projetos de poder.
O Brasil está repleto de exemplos. Não é de hoje não, muito embora nas últimas duas décadas tudo tenha sido elevado a um grau sem comparativos. Porém, não se trata apenas de uma questão moral. Como as estatais passam a servir a interesses dos donos do poder, acabam se tornando ineficientes, caras, corruptas e não atendem aos fundamentos que justificaram a sua existência. Nesse caso também, multiplicam-se os exemplos no Brasil.
No Brasil, as estatais se tornaram o ambiente dominado pelo clientelismo e pelo patrimonialismo, as pestes dos primórdios do País que persistem e impedem o desenvolvimento social e econômico.
Numa tradução simples, o clientelismo é a concessão de empregos (na estrutura de uma estatal, por exemplo), benefícios públicos e fiscais, vantagens econômicas, obras e outras benesses em troca de apoio político.
O clientelismo deriva do patrimonialismo, que é a instrumentalização das estruturas estatais para atender a interesses pessoais ou de grupos. No mais das vezes, o patrimonialista trata o bem público como se fosse sua propriedade particular.
A introdução serve para apresentar uma agenda positiva que se desenvolve em Fortaleza. Trato aqui das consequências da privatização do aeroporto Pinto Martins, fato ainda muito recente, mas com excelentes repercussões que, felizmente, fogem ao controle dos governantes, clientelistas e patrimonislistas.
O Pinto Martins foi a leilão. Uma empresa alemã especializada no ramo ganhou em concorrência pública o direito de explorar o negócio. Pagou uma fortuna por esse direito. Além disso, a empresa assumiu obrigações contratuais de modernizar o equipamento com investimentos que superam em três vezes o gasto inicial.
O primeiro ponto é de cunho prático e, para muitos, ideológico: o que justifica o Estado manter sob seu controle a gestão de aeroportos? Ninguém com mente saudável é capaz de oferecer uma justificativa razoável para que assim seja.
A crise ajudou. Sem dinheiro, o País achou por bem privatizar vários aeroportos. Diferente de outras tentativas, dessa vez a ineficiente estatal Infraero saiu por completo da participação no negócio. Isso fez com que operadores profissionais se interessassem pelos aeroportos, incluindo o nosso Pinto Martins.
Mesmo antes da empresa Fraport assumir por completo a gestão do aeroporto de Fortaleza, as coisas já começaram a acontecer. É uma empresa com articulação global e parceira de grandes companhias de aviação. Deu-se assim o que chamamos de círculo virtuoso.
Resultado: rapidamente, evidenciou-se a negociação para que o Pinto Martins se tornasse um hub de voos do consórcio formado pela Air France e KLM, que se articulou com a Gol. A brasileira ganhou o papel de fornecer passageiros dos voos que vão partir de Fortaleza para Paris e Amsterdã. Seis por semana.
Jamais aconteceria algo de tal envergadura com um aeroporto estatal, controlado por uma empresa como a Infraero, sem articulações internacionais e sem inserção nesse complexo negócio.
O melhor de tudo é que essa história ocorreu sem que se precisasse da mediação dos governantes. O estado foi saber do negócio AF-KLM- Gol navéspera da coletiva em São Paulo convocada para anunciar o feito. O governador foi apenas convidado para o evento. A Prefeitura de nada sabia.
Já está ocorrendo nova situação com características bem parecidas. A companhia Royal Air Marroc, do Marrocos, está prestes a concretizar o voo Fortaleza Casablanca. Claro que aproveitando pela avenida aberta pela sociedade AF-KLM- GOL.
Também nesse caso, as autoridades públicas foram surpreendidas. A parte que cabe ao Governo já foi feita. A lei que cria um sistema fiscal para viabilizar o hub está em pleno vigor. Seu papel agora é do aeroporto para fora. Aí sim, muito precisa ser feito.
Trocando em miúdos, sem o Governo no meio, a iniciativa privada, que precisa oferecer serviços de qualidade para ter lucro (e cumprir o contrato), faz a sua parte da melhor maneira possível.
Ficam de fora a demagogia barata, as bravatas e tudo mais que caracteriza nosso mundinho político.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

The Economist diz que Brasil é o mais preparado para crise do petróleo; Um cearense construiu essa vantagem

No ataque ao PT, Girão abre frente contra a “direita fisiológica”

Inédito: Flávio vence Lula no 2º turno, aponta AtlasIntel

Lula lidera, mas sob desgaste e o centro deve definir 2026

A van está virando ônibus? União Progressista pende ao governismo e redesenha 2026 no Ceará

Enfim, intituições funcionam e põem fim ao “passaporte do barulho” em Fortaleza

Horas antes da prisão, Vorcaro enviou mensagem a Moraes, que respondeu no modo visualização única

Vorcaro teve prisão decretada em 2020, mas instituições falharam e a porta se abriu para os crimes em série

Apostas bilionárias e suspeitas antecipam ataque dos EUA ao Irã

Café da Serra de Baturité recebe selo nacional de Indicação de Procedência

Freio de arrumação no governismo do Ceará: ambições e a difícil engenharia da chapa de 2026

MP dos datacenters caduca e ameaça planos no Ceará, incluindo planos do projeto de R$ 200 bi no Pecém

MAIS LIDAS DO DIA

Crise em Ormuz inaugura nova fase da desordem global e cria oportunidade para o Brasil. Por Aldairton Carvalho

PSD lança Caiado ao Planalto e tenta ocupar espaço no centro com nome de perfil à direita

Pesquisa Big Data: Elmano lidera espontânea e empata com Ciro no Ceará

Big Data Senado no Ceará: Wagner lidera e 2ª vaga fica em aberto

Moraes dá 24h para defesa explicar fala de Eduardo sobre envio de vídeo a Bolsonaro

STF restringe uso de relatórios do Coaf e impõe trava à fishing expedition (pesca probatória)

Reajuste de medicamentos deve ficar abaixo da inflação e começar em abril

IGP-M sobe 0,52% em março e reflete impacto da alta do petróleo

Decon reúne bares, restaurantes e casas noturnas de Fortaleza para reforçar adesão ao protocolo “Não é Não”