Arte e censura

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Por Rui Martinho
rui.martinho@terra.com.br

Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política.

Eis que de repente, não mais que de repente, todos se descobrem críticos de arte. A censura prévia volta ao debate, associada a produção artística. Somos pela liberdade de expressão e pela autonomia do consumidor, inclusive apreciadores de arte. Não pode haver democracia quando se tutela o consumidor, como se ele fosse incapaz. O Direito tem pecado por decidir pelos cidadãos, sinalizando que os considera menores. A democracia de cidadãos tutelados, necessitados de protetores, é tão democrática quanto o círculo é quadrado.

O que seja arte é um debate do tipo interminável. A variedade de concepções sobre o tema, entre os filósofos, atende a todos os gostos. Platão entendia que arte era copiar o real. Daí os artistas do seu tempo reproduzirem com tanto esmero as formas anatômicas dos seus modelos. Aristóteles acrescentou uma “centelha criativa” à concepção de arte. Jean B. Vico agregou a fantasia ao trabalho do artista. Kant entendeu que a particularidade de cada obra deveria expressar alguma universalidade. Houve que falasse em catarse, em performance e não sei mais o que. Mas não sendo do ramo, penso simplesmente que para que algo seja arte deve haver outra coisa que não o seja, pois se tudo fosse arte, ser artista seria uma condição universal. Então, artista é quem tem alguma habilidade, aptidão ou talento.

As recentes exposições no Espaço Cultural do Santander, em Porto Alegre, e a MAM, em São Paulo, estão na raiz do atual debate sobre arte e censura. O que é preciso, sem a menor relação com censura, é indagar qual é a habilidade, aptidão ou talento em deitar-se despido no chão, ainda que representando um origame. Ou em rabiscos nos quais se pode distinguir símbolos religiosos em meio a cenas de zoofilia e de sexo infantil?

A liberdade de expressão e o direito de livre escolha do consumidor protegem tais coisas e é assim que deve ser assim. Vade retro censura prévia. Seja o que for que consideremos arte. Um crime, porém, ainda que cometido no curso de uma prática artística, não deixa de ser crime. Caso um ator, representando um personagem mate realmente outro ator, que também personifica personagem, como parte do drama, a morte “artística” não deixará de ser homicídio. Logo, o vilipêndio de símbolos religiosos, quer concordemos ou não com o artigo 208 do CPB (decreto 2.848/40), é uma transgressão da lei.

Ao invés de censura prévia o Brasil precisa levar a sério as leis, para que elas sejam cumpridas. O art. 208 do CPB, como toda norma penal, tem um preceito primário, na forma da descrição de uma conduta; e um segundo preceito, no qual é cominada uma pena para a conduta descrita. A norma penal em comento não tem a menor relação com censura prévia. Apenas define vilipêndio a símbolos religiosos e, no preceito secundário, estipula uma pena de um mês a um ano de detenção ou multa; reservando ainda, no seu parágrafo único, uma qualificadora, pelo uso e violência, aumentando a pena em um terço, sem prejuízo de outra pena pelo uso da violência.

Não é necessário discutir o que seja arte. Nem é preciso tocar os clarins da censura prévia. Existem expressões artísticas que só as pessoas inteligentes entendem, ao estilo da roupa de um certo rei lendário. Quando uma excelente obra de arte, por motivos alheios ao mérito artístico, transgredir a lei, basta que se faça valer o preceito secundário da norma penal. Trocando em miúdos: não precisamos de censura. Precisamos de respeito à lei de punição para aqueles transgridem o ordenamento jurídico, observada a ampla defesa, o contraditório, e tudo mais.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

The Economist diz que Brasil é o mais preparado para crise do petróleo; Um cearense construiu essa vantagem

No ataque ao PT, Girão abre frente contra a “direita fisiológica”

Inédito: Flávio vence Lula no 2º turno, aponta AtlasIntel

Lula lidera, mas sob desgaste e o centro deve definir 2026

A van está virando ônibus? União Progressista pende ao governismo e redesenha 2026 no Ceará

Enfim, intituições funcionam e põem fim ao “passaporte do barulho” em Fortaleza

Horas antes da prisão, Vorcaro enviou mensagem a Moraes, que respondeu no modo visualização única

Vorcaro teve prisão decretada em 2020, mas instituições falharam e a porta se abriu para os crimes em série

Apostas bilionárias e suspeitas antecipam ataque dos EUA ao Irã

Café da Serra de Baturité recebe selo nacional de Indicação de Procedência

Freio de arrumação no governismo do Ceará: ambições e a difícil engenharia da chapa de 2026

MP dos datacenters caduca e ameaça planos no Ceará, incluindo planos do projeto de R$ 200 bi no Pecém

MAIS LIDAS DO DIA

Crise em Ormuz inaugura nova fase da desordem global e cria oportunidade para o Brasil. Por Aldairton Carvalho

PSD lança Caiado ao Planalto e tenta ocupar espaço no centro com nome de perfil à direita

Pesquisa Big Data: Elmano lidera espontânea e empata com Ciro no Ceará

Big Data Senado no Ceará: Wagner lidera e 2ª vaga fica em aberto

Moraes dá 24h para defesa explicar fala de Eduardo sobre envio de vídeo a Bolsonaro

STF restringe uso de relatórios do Coaf e impõe trava à fishing expedition (pesca probatória)

Reajuste de medicamentos deve ficar abaixo da inflação e começar em abril

IGP-M sobe 0,52% em março e reflete impacto da alta do petróleo

Decon reúne bares, restaurantes e casas noturnas de Fortaleza para reforçar adesão ao protocolo “Não é Não”