
Por Ricardo Alcântara
Post convidado
Ao contrário da musa de Balzac, a democracia brasileira não é pródiga em atributos aos trinta anos: ela subsiste ligada ao balão de oxigênio de uma tolerância já rarefeita. Nação e Estado dormem em camas separadas: a democracia não funciona se o interesse comum não prevalece minimamente. Não há dimensão da vida nacional isenta de adulteração no uso abusivo de direitos e deveres ou na negação deles. Para onde se olha (igrejas, tribunais, partidos, sindicatos, mídia, polícia) o que se vê? Instituições devotadas ao vício.
Basta ler as pesquisas eleitorais para constatar: a sociedade não desenvolveu suficiente afeição por sua democracia. Cresci durante a Guerra Fria e sei que o péssimo pode piorar: no limite, a classe média não buscará amparo em outra parte, senão nos quartéis. Estamos em queda livre, a salvo ainda do impacto dilacerador por uma conjuntura internacional favorável às economias que, como a nossa, fornecem matéria prima e recursos primários.
Menos de cem dias e reparem no que fomos forçados a assistir em 2018:
– O Exército realiza uma intervenção na meca do narcotráfico e não garante a salvaguarda – exigência mínima de um plano de inteligência – à vida de alguns alvos óbvios, como a vereadora Marielle Franco.
– O supremo tribunal, num exibicionismo vulgar com indícios de venalidade, passa a considerar a hipótese de sermos o único entre os 194 membros da ONU onde condenados não estariam encarcerados.
– Um candidato a presidente que em seus discursos elogia torturadores como heróis nacionais lidera as pesquisas de opinião sem oferecer uma única proposta concreta para os problemas reais do país.
– Outro, professa a estapafúrdia versão de que só responde a seis processos por suspeita de chefiar uma organização criminosa devido a uma conspiração internacional sem qualquer indício pertinente…e tem quem acredite!
– Por fim, um meliante nato usa os timbres oficiais da Presidência da República para assinar nota em que reage à prisão de seus colaboradores mais próximos acusando a Justiça de “perseguição política”.
Tim Maia, de irreverência celebrada em livro e filme, definia o Brasil como o país onde “traficante se vicia e prostituta se apaixona”. Quando o disse, foi um escândalo. Hoje, penso que se expressou com generosidade.







