Memória a serviço da vingança, por Antônio Colaço Martins Filho

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Antônio Colaço Martins Filho é chanceler do Centro Universitário Fametro – UNIFAMETRO (CE). Diretor Executivo de Ensino do Centro Universitário UNIESP (PB). Doutor em Ciências Jurídicas Gerais pela Universidade do Minho – UMINHO (Portugal), Mestre em Ciências Jurídico-Filosóficas pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto (Portugal), Graduado em Direito pela Universidade Federal do Ceará. Autor das obras: “Da Comissão Nacional da Verdade: incidências epistemiológicas”; “Direitos Sociais: uma década de justiciabilidade no STF”. colaco.martins@unifametro.edu.br. Escreve no Focus.jor.

Por Antônio Colaço Martins Filho
Post convidado

Friedrich Nietzsche defendia que a habilidade inata ao ser humano de esquecer é o que torna possível ser feliz. Para o intelectual alemão, viver sem esquecimento seria danoso e fatal a um povo ou a uma cultura. Ireneo Funes, personagem de Jorge Luis Borges dotado de memória absoluta, por força da sua incapacidade de esquecer e de desprezar as particularidades e assimetrias entre objetos e fenômenos da mesma natureza, também era incapaz de generalizar, abstrair, estabelecer padrões e, em última instância, de raciocinar.

Tanto no âmbito individual quanto no social, o esquecimento é a regra. Em milissegundos, vou esquecer que recebi uma mensagem no celular enquanto escrevia este texto. No plano das relações particulares, esquecer atitudes infelizes de pessoas que nos são caras é fundamental para a continuidade dos relacionamentos. No contexto social mais amplo, os entes sociais (família, escola, igrejas, governo, ONG´s…) soem materializar as memórias que julgam mais importantes em diversos meios: álbuns de fotografias, eventos, desfiles, paradas, manifestos, documentários, obras audiovisuais etc). Embora as tradições costumem resistir ao tempo, as nuances de cada evento são, via de regra, perdidas.

Existem louváveis iniciativas no sentido de registrar e dar publicidade às graves violações aos direitos humanos. Tais registros não são nem devem ser política e ideologicamente neutros, se é que é possível tal neutralidade. Entretanto, ao lado dessas nobres iniciativas, figuram outras com propósitos menos elevados.

Por ocasião da conturbada transição da democracia americana (Eleições Presidenciais 2020), membros da ala mais radical do Partido Democrata manifestaram a intenção de arquivar posts antigos de apoiadores do atual presidente nas redes sociais, para fins de “prestação de contas”. Na mesma toada, ativistas anti-Trump chegaram a criar uma lista negra, posteriormente retirada do ar, com os nomes de pessoas ligadas ao governo Trump. A intenção declarada do The Trump Accountability Project (https://www.trumpaccountability.net/) era impedir que as pessoas recém-egressas da administração Trump fossem bem-sucedidas em outro ramo da economia. Trocando em miúdos, seria uma espécie de pré-cancelamento de profissionais que ousaram trabalhar em um governo que ostenta visão política diferente.

Se o projeto fosse bem-sucedido, empresas ficariam constrangidas em acolher os ex-funcionários públicos, obstando ou dificultando a continuidade de suas carreiras. No longo prazo, profissionais de mercado poderiam deixar de prestar relevantes serviços públicos por receio de perseguição política no futuro.

A democracia é um sistema político que se alimenta e depende do permanente diálogo de posições políticas divergentes. O próprio ato de materializar a memória e utilizá-la livremente só é permitido em ambiente democrático. Nesse passo, a instrumentalização da memória para fins de vingança política e silenciamento de adversários parece-nos danosa à democracia, na medida em que ataca seus próprios fundamentos. De mais a mais, tais atitudes favorecem uma banalização das iniciativas que buscam trazer à luz graves violações aos direitos humanos.

Em suma, tanto no âmbito privado quanto no público, a utilização da memória para fins de perseguição política pode afetar as próprias bases da democracia. No nosso sentir, faz-se necessário que as empresas resistam à pressão política do cancelamento e rejeitem o papel de meras caixas de ressonância de entidades movidas pela vingança política.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Horas antes da prisão, Vorcaro enviou mensagem a Moraes, que respondeu no modo visualização única

Vorcaro teve prisão decretada em 2020, mas instituições falharam e a porta se abriu para os crimes em série

Apostas bilionárias e suspeitas antecipam ataque dos EUA ao Irã

Café da Serra de Baturité recebe selo nacional de Indicação de Procedência

Freio de arrumação no governismo do Ceará: ambições e a difícil engenharia da chapa de 2026

MP dos datacenters caduca e ameaça planos no Ceará, incluindo planos do projeto de R$ 200 bi no Pecém

Camilo, a missão, o ruído e o desconforto de Elmano

TikTok e Omnia contestam laudo do MPF sobre Datacenter de R$ 200 no Pecém

Do jeito que vai, eleição presidencial vai ser decidida pelo eleitor “nem-nem”

A política de segurança, a lógica do crime e os gigolôs da violência

PPP do Esgoto no Ceará: R$ 7 bilhões para universalizar saneamento em 127 cidades

Genial/Quaest: Lula segue com desaprovação maior que aprovação e perde fôlego entre independentes

MAIS LIDAS DO DIA

Lula defende ampliar importação de gás da Bolívia e reforça integração energética

STJ valida empréstimo digital sem ICP-Brasil e reforça segurança dos contratos eletrônicos

Decon e ANP autuam distribuidoras por alta indevida de combustíveis em Fortaleza

TST valida citação por WhatsApp e reforça que alegação de não leitura não anula ato processual