A sociedade aberta, por Rui Martinho

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

A grandeza e a diversidade do mundo dificultam a compreensão das mudanças. Quanto maior ou mais complexo o objeto mais raso e incerto o conhecimento sobre ele. A civilização começou nos grupos primários, caracterizados pelas relações diretas entre os membros, intimidade, afetividade, espontaneidade e cooperação direta (Dicionário de Ciências Sociais, da FGV). O trabalho de cada um podia ser visto por todos e consistia em atividade física. A organização resultou de tentativa e erro corrigido, conforme Friedrich August von Hayek (1899 – 1992), sob o sistema de parentesco (Claude Lévi-Strauss, 1908 – 2009), como uma pequena ordem.

A pequena ordem cresceu. Surgiram grupos secundários, relações indiretas, fragmentárias e impessoais. A estes Hayek, na obra “Erros fatais do socialismo”, denominou ordem ampliada espontânea, por não ser criada por algum gênio e por não ter um sistema centralizado. Nela prevaleceram, por seleção natural, condutas que resultaram em maior oferta de bens e serviços. Tais condutas nem sempre são atividades físicas, visíveis, não seguem os padrões da pequena ordem originária e são incompreendidas, classificadas como contrárias ao interesse social, pelo não reconhecimento do trabalho distinto da atividade física e os seus benefícios indiretos. A persistência de tal percepção lembra os resíduos e derivações de Vilfredo Pareto (1848 – 1923) e são comparáveis à longa duração histórica de que trata Fernand Braudel (1902 – 1985). Nascia a ordem ampliada espontânea (Hayek).

A amplitude do objeto é inversamente proporcional ao conhecimento sobre ele. Entender a ordem ampliada produz conhecimentos superficial e inconsistente (Imídio Giuseppe Nérici, “Introdução à lógica”). Fórmulas definidoras do dever ser da sociedade fracassaram sempre desde a tentativa de Platão (428/27 a.C. – 348/347 a.C.) em Siracusa. Arrependido do que disse na obra “A República”, Platão escreveu “As leis”, mas não foi bem recebido. O planejamento central não consegue articular todas as variáveis da ordem ampliada, mas enseja a sensação de superioridade moral e intelectual. Fracassa, mas é sedutor.

Há uma raiz atávica animista em certas fórmulas “esclarecidas”. A personificação de entes como se pessoa fossem, com um espírito, ao modo do animismo, é observada na categoria classe social posta como fundamento maior da análise histórica e social, considerada como unidade monolítica (Hayek). Classes consideradas segundo a origem da renda seja capital ou trabalho (Karl Heinrich Marx, 1818 – 1883), como se a sociedade fosse formada por duas partes monolíticas e personificadas, burguesia e proletariado, lembram os resíduos e derivações de Pareto, relativamente ao animismo.

A divisão dicotômica oferece um prato cheio de oprimidos e injustiças a quem queira profligar o mundo mal. A busca dos fatos considera a estratificação baseada na quantidade de renda (posição no mercado, Karl Emil Maximilian Weber, 1864 – 1920), como nas pesquisas eleitorais, dando lugar a diversas camadas de renda. Isso não é classe, é camada! Então para que serve a origem da renda? Não explica nem venda de sabonete. Grupos identitários, importantes como massa de manobra, não se ajustam a estratificação dicotômica nem às camadas de renda. A estratificação dicotômica, porém, continua entronizada como unidade fundamental de análise.

O fetichismo do conceito (Luís de Gusmão, vivo) somado aos citados resíduos e derivações, longa duração, incomunicabilidade dos paradigmas (Thomas Samuel Kuhn, 1922 – 1996) e aos obstáculos epistemológicos (Gaston Bachelard, 1884 – 1962) também explicam o animismo residual remanescente da pequena ordem. A logomaquia dos inimigos da sociedade aberta (Karl Raymond Popper, 1902 – 1994) também influencia quem se coloca genuflexo ao ler autores consagrados. É preciso seguir Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 – 1900): ria de todos os mestres.

Fortaleza, 26/11/20.

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