Um caso de política, por Rui Martinho

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Dezenas de bandidos subjugaram, por algumas horas, a cidade de Criciúma, SC, que ao tempo do senso de 2010 contava com cento e trinta e três mil habitantes. Objetivo: roubar a agência do Banco do Brasil. Foi a repetição do ocorrido uma semana antes em Araraquara, SP, cidade de duzentos e trinta e oito mil habitantes, segundo estimativa do IBGE para o corrente ano. Há quem fala em novo cangaço. Os cangaceiros, porém, atacavam apenas cidades pequenas. Depois de tentar apoderar-se de Mossoró, Lampião teria dito que cidade com mais uma torre de igreja não é para cangaceiro, conforme Cícero Rodrigues de Carvalho, na obra “Sociologia do cangaço”. A minúscula vila de Nazaré, na zona rural do município de Arco Verde, também repeliu um ataque de famoso bandido. O rei dos cangaceiros contava entre gargalhadas que saiu de lá correndo porque na citada vila até menino atirava.

Hoje criminosos escolhem cidades médias, sede de batalhões que são atacados e encurralados pelos bandidos. Táticas de combate urbano são usadas. Vias são bloqueadas, emboscadas são preparadas para os reforços que porventura sejam enviados. Armamento de guerra é empregado. Informações sobre a presença no Brasil de veteranos das lutas do Oriente Médio, contratados para treinar e organizar combatentes do tráfico não são novidade. A enorme soma de recursos arrecado pelas organizações criminosas permite isso. O controle de territórios; a imposição de normas rigorosamente obedecidas pela população; o despejo de famílias de suas casas; a resolução esta que transita em julgados imediatamente e a implantação do terror com práticas que vão do tiro na mão ou na coluna vertebral até a morte estão consolidados.

Os laços entre as organizações criminosas e a sociedade vão desde o consumo do que elas oferecem, financiando-as; até a participação nas fileiras dos exércitos das mencionadas facções, passando pelo suborno e a intimidação. Tudo isso fica relegado aos noticiários policiais menos prestigiados. A sociedade adaptou-se ao quadro trágico descrito. As parcelas mais influentes da sociedade ainda não são despejadas de suas casas. A expressão “caso de polícia”, usada para indicar problema grosseiro, mas simples, diverso dos magnos desafios da política não corresponde a este tipo de criminalidade, que é “apenas um caso de política”. O Leviatã emasculado pela vitimização da bandidagem; falência dos valores sem os quais as leis “não pegam”; pela decadência da democracia transformada em demagogia, conforme previsão de Aristóteles (384 a.C. – 322 a. C.) cria uma situação semelhante a tantas outras em que figuras nomeadas como “senhores da guerra” (bandidos poderosos), como na China durante o período de desordem naquele país, assumem o controle da sociedade. A queda do Império Romano foi sucedida pelo surgimento de poderosos que ofereciam proteção cobrando vassalagem, compondo um quadro, em nossos dias, comparável com o fim da pax romana. Temos senhores da guerra, algum tipo de proteção em troca de vassalagem, perda de referências e desorientação na sociedade líquida (Zygmunt Bauman, 1925 – 2017), pós-moralista (Giles Lipovetsky, 1944 – vivo) e desorientada (Anthony Daniels, conhecido como Theodore Darlymple, 1949 – vivo). “A revanche do sagrado sobre a cultura profana”, obra de Leszek Kolakowski (1927 – 2009), ressalta mais um elemento comparável ao que resultou na ordem medieval. Resta saber se teremos uma Idade Média islâmica ou se uma religião civil prevalecerá com os seus dogmas.

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