
Por Mayra Pinheiro
Post convidado
Mais uma vida ceifada, mais uma família destruída. Mais parentes e amigos chorando sobre um corpo inerte. Mais uma dor que dilacera. Quando essas linhas começaram a ser escritas, tinham como destino a jovem Cecília, assassinada em uma tentativa de assalto, no último dia 12. Hoje, também se dirigem ao diretor do Fortaleza, o Betinho, que se soma a tantos outros. Mal imaginava que, pouco mais de uma semana após ser abalado com a morte da estudante, ele seria também protagonista desta triste sina. Não há como não se perguntar: “Serei eu o próximo? Será a minha família?”
Ninguém sabe. Só se sabe que vai acontecer de novo. Caminhamos firmes para bater com folga o nosso vergonhoso recorde de 2017, em que tivemos 5.134 homicídios no Estado. Quando confrontadas, as autoridades vacinam quaisquer críticas com o discurso do ”oportunismo em ano eleitoral”. Na verdade, medem todos pela sua régua. Tudo que se opõe à sua obstinada corrida eleitoral é logo violentamente refutado. Afinal, nada pode atrapalhar os planos de mais 4 anos no poder. Nada mesmo.
No mesmo momento em que os pais de Cecília a sepultavam em Fortaleza, a cidade de Cascavel vivia um clima de festa, com direito (pasmem) a tema da vitória do Ayrton Senna, chegada triunfante do Raio e discursos efusivos do governador e de seu séquito. No mesmo instante em que um pai e uma mãe viam o caixão da própria filha descer à sepultura, o secretário de segurança, André Costa, dava entrevistas enaltecendo o trabalho do governador.
À noite, dando sequência àquela macabra sexta-feira 13, a Prefeitura de Fortaleza oferecia a uma cidade enlutada um show do Caetano Veloso, como se nada tivesse acontecido. Sobre as mortes, não se ouviu uma palavra oficial do governo ou prefeitura. Demonstrar qualquer compaixão pelo sofrimento alheio significa submeter-se ao escrutínio de uma população revoltada e desesperançosa. Melhor então esperar as notícias sumirem dos jornais e virarem só mais um número nas planilhas da SSPDS.
O que faz com que alguém encontre ânimo para subir em um palanque, sorrir e discursar, sabendo que um pai está enterrando uma filha, vítima da violência, naquele mesmo instante? Como um projeto político pode se sobrepor de tal maneira à dor do próximo?
Em outubro, as mortes de Betinho e Cecília já não existirão mais, a não ser para suas famílias. Ouviremos nos programas eleitorais que ainda há muito a ser feito, mas que nunca se investiu tanto em segurança pública. A TV mostrará o governador e seu séquito se apinhando na caçamba de uma Hilux, desfilando Ceará afora em meio a bandeiras, enquanto eles acenam para a população com o “v” da vitória. Não haverá registros de coletivas de imprensa sobre os crimes, não haverá mea culpas, não haverá declarações infelizes e nenhum rastro de todo o sangue derramado.
Essa é a estratégia do silêncio, e não vai mudar. Cabe à sociedade, hoje também calada, acuada, saber dar a resposta no momento certo. Isso não trará os inocentes de volta, mas vai poupar a vida de milhares de Betinhos e Cecílias, vítimas da violência. E, principalmente, do descaso com a dor alheia.







