Empoderamento. Por Rui Martinho

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

A palavra de ordem, hoje, é empoderar. Significa conceder ou conquistar poder para si ou para outrem, capacidade de dominar uma situação. Festejam o empoderamento, a conquista da capacidade de exercer domínio. Esquecem que o poder corrompe e o poder absoluto corrompe de modo absoluto (John Emerich Edward Dalberg-Acton, 1834 – 1902).

Será a aquisição de poder legitimada por ter como sujeito do verbo grupos identitários ou alguma outra categoria social? Não. O domínio concedido ou conquistado por parcelas da sociedade é contrário a igualdade jurídica. Prejudica a integração social. Desagrega. Historicamente cinco elites competem pelo poder: guerreira; sacerdotal; política; econômica; intelectual (Gaetano Mosca, 1858 – 1941). O domínio de uma delas sobre as demais leva ao totalitarismo. A democracia é competição entre poderes, sem o domínio de nenhum deles sobre os demais. Políticos subordinaram as demais elites nas trágicas experiências totalitárias do século XX, subordinando ou eliminando as elites econômica; militar, vigiada por comissários políticos; intelectual; e sacerdotal, ambas submetida ao poder da censura.

Carl Wright Mills (1916 – 1962), na obra “A elite do poder”, estudou a sociedade americana e identificou elites que nomeou como “diretório político”, senhores da guerra, ricos, celebridades e entre estes os intelectuais. Nomeou diversamente as elites de Mosca. Roberto Michels (1876 – 1936) enunciou a “lei de ferro da oligarquia”. Foi criticado por Karl Emil Maximilian Weber (1864 – 1920), que com razão reprovou elaboração de lei nas ciências humanas, que não são nomológicas; e a pobreza de dados empíricos no embasamento da suposta lei. A visão de Michels, todavia, embora não seja lei, é uma tendência fortíssima. A dinastia atual da Coreia do Norte é exemplo disso, expressivo por vir de um movimento que tem por emblema a ênfase na igualdade.

A grande mobilidade social, como no Brasil por quase todo o século XX (José Pastore, 1935 – vivo, na obra “Mobilidade social no Brasil”), não afasta o favorecimento de parentes pelas elites momentâneas, o nepotismo e o clientelismo, como no tempo do coronelismo (André Heráclito Rego, 1968 – vivo, na obra “Família e coronelismo no Brasil: uma história do poder”), do qual permanecem alguns resíduos. O patrimonialismo remanescente no Brasil, estudado por Raymundo Faoro (1925 – 2003), na obra “Os donos do poder”, é outra via de expressão da “lei” de ferro da oligarquia.

Empoderar é parte do sonho de emancipação. Jean Jacques-Rousseau (1712 – 1778), entre muitos outros inspiradores desta tradição, tem como base a Antropologia Filosófica para a qual o homem é “o bom selvagem”. Sem ter conhecido um só índio brasileiro, iluministas imaginaram que eles eram angelicais. Afonso Arinos de Melo Franco (1905 – 1990), na obra “O índio brasileiro e a Revolução Francesa”, mostra a pressa com que intelectuais diagnosticaram o caráter harmonioso do que era a feroz sociedade indígena que não conheciam. A apregoada “candura” dos iluministas degolou milhares na guilhotina. A outra via da emancipação é explicitamente feroz, defendida por Friedrich Nietzsche (1844 – 1900).

A emancipação, melhor compreendida Sigmund Schlomo Freud (1856 – 1939), na obra “O mal-estar na civilização”, para quem a convivência civilizada impõe limites aos desejos, requer normas de contrapoder, como as da primeira e segunda geração de direitos (Norberto Bobbio, 1909 – 2004), em que os comandos vindos do poder central diziam aos súditos: não mate, não roube (primeira geração) e os cidadãos diziam aos governantes: não cobre tributos sem lei que o autorize, não condene sem o devido processo legal (segunda geração), opondo-se ao mais forte. Contrapoder é proteção. O emponderamento é feroz.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Fortaleza domina Enem 2025: capital ocupa as 3 primeiras posições do BR e tem 4 escolas entre as 10 melhores

Ibmec chega a Fortaleza e firma Ceará como polo nacional de educação, inovação e negócios

Pesquisa Atlasintel Piauí 2026: eleição praticamente resolvida a favor do PT

Pesquisa Focus Poder/Atlasintel explica decisão de Ciro e PSDB de manter distância de Flávio

PSD dos “Domingos” leva Comissão de Orçamento do Congresso e reforça musculatura para a vice no Ceará

Focus/Atlasintel: Lula abre larga vantagem no Ceará e reforça ativo eleitoral de Elmano para 2026

Pesquisa Focus/Atlas para o Senado Ceará: Cenários embolados com Cid favorito; sem sua candidatura, Luizianne salta

Pesquisa Focus Poder + Atlasintel: Ciro e Elmano empatam na corrida ao Governo

UFC entra no Top 15 nacional de patentes e reforça posição como polo de inovação

Governo do Ceará: Pesquisa Focus Poder/AtlasIntel será divulgada nesta segunda-feira

PIX vira vitrine global: fundador do Web Summit diz que sistema brasileiro “destrói monopólios” e inspira o mundo

Em meio à batalha judicial, Eneva e Diamante iniciam investimento de R$ 6 bi em energia e infraestrutura no Pecém

MAIS LIDAS DO DIA

Baixa concorrência marca leilão da Cagece; consórcio liderado pela Terracom vence único bloco licitado

Brasil cria 25 novos milionários por dia, mas segue entre os países mais desiguais do planeta

Fundo de R$ 482 milhões mira data center da Scala no Ceará

Luizianne formaliza pré-candidatura ao Senado pela Rede/PSOL

Michelle Bolsonaro deixa presidência do PL Mulher

Produtividade é decisão. Por Marcos Moreira

Senado debate nesta quarta-feira (1º)) sobre PEC que reduz jornada para 40 horas e acaba com escala 6×1

Pix reduz uso de dinheiro em espécie para 61% dos brasileiros, aponta pesquisa