O fim de Hong Kong. Por Igor Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

Hong Kong é uma cidade que pude visitar algumas vezes, e sempre me impressionou a sua dinâmica, a sua economia, a sua multicultura e toda sua história, uma Cidade-estado que evoluiu de um entreposto comercial para uma das mais importantes cidades sob a ótica das empresas, do mercado financeiro e do comércio marítimo.

Entretanto, após as manifestações por mais democracia em 2019, que chamaram a atenção de todo o planeta, o governo de Pequim hoje impõe mudanças que devem mudar para sempre as características de uma cidade que representa a liberdade e a democracia no ocidente.

Em março deste ano, os delegados do Congresso Nacional do Povo, órgão decisório do Partido Comunista Chinês, aprovaram mudanças radicais nas leis eleitorais de Hong Kong e, por uma decisão unânime de 2.895 votos, aprovaram uma legislação que determina que apenas patriotas poderão ser autorizados a administrar Hong Kong. Dessa maneira, a nova legislação irá efetivamente impedir que oponentes declarados do governo de Hong Kong (aliado hoje a Pequim) ou críticos do Partido Comunista da China sejam eleitos para qualquer cargo eletivo.

Em fevereiro, as autoridades divulgaram um novo “currículo patriótico” para ensinar às crianças sobre o “sentimento de pertencer ao país” e o “afeto pelo povo chinês”, que na prática é uma resposta à maneira que as escolas da cidade utilizam para ensinar as crianças de Hong Kong a pensar com criticidade. Agora as crianças de apenas 6 anos deverão memorizar quais são os crimes caracterizados pela Lei de Segurança Nacional, incluindo subversão, secessão, terrorismo e conluio com potências estrangeiras. As autoridades chinesas e seus aliados locais estão convencidos de que anos de educação liberal ‘envenenaram’ as mentes jovens de Hong Kong, tornando-as adeptas às teorias ocidentais e ao liberalismo.

Xi Jinping e seus aliados em Hong Kong incluíram na nova legislação que todos os funcionários públicos deverão passar por testes mais rigorosos de patriotismo. Com o tempo, isso deixará menos espaço para os juízes independentes, alguns deles até estrangeiros, que atualmente fazem dos tribunais de Hong Kong alguns dos mais confiáveis da Ásia; assim, o Estado de Direito em Hong Kong estará em um importante risco.

Segundo as autoridades chinesas e os acadêmicos apoiados pelo Estado, bem como os políticos pró-governo em Hong Kong, as mudanças são objetivamente para neutralizar a oposição, e tudo isso é um passo necessário em direção a um objetivo maior: reparar as falhas que tornam estruturalmente os sistemas político e econômico de Hong Kong “doentes” por meio de uma remodelação total de suas instituições e de sua sociedade. Além disso, eles reforçam que o papel de Hong Kong como centro financeiro internacional gerará lucros, e que as instituições financeiras ocidentais apressar-se-ão para investir, tornando irrelevantes as reclamações de governos estrangeiros.

É importante ressaltar que tudo isso vai contra a promessa histórica de que não haveria intervenção da soberania chinesa sobre Hong Kong, e que a relação seria guiada pelo princípio de “Um país, dois sistemas”, que agora se mostra em ruínas. Na fórmula, cunhada na década de 1980 por Deng Xiaoping, líder supremo da China, falava-se sobre o valor único de Hong Kong como uma porta de entrada para um mundo ocidental muito mais rico e avançado em que a China poderia assimilar um valor que justificava o sistema democrático da cidade.

O mundo democrático tem todo o direito de ficar chocado com a destruição do modelo “Um país, dois sistemas” e deve reagir a isso! Os Estados Unidos não perderam o interesse por Hong Kong, e esse deve ser um ponto importantíssimo de uma disputa geopolítica no século XXI. Os britânicos enxergam nessas mudanças uma quebra unilateral, por parte da China, do acordo assinado em 1984, devolvida em 1997, o que faz com que o Reino Unido se junte aos Estados Unidos para a defesa de Hong Kong e de seus cidadãos, inclusive possibilitando a nacionalidade inglesa e o acesso especial à ilha britânica aos que se sentirem perseguidos em Hong Kong. A administração de Joe Biden impôs sanções financeiras a mais de 24 funcionários chineses e algumas novas rodadas de negociações e sanções deverão seguir. A Velha Hong Kong infelizmente foi destruída pelas mãos de Xi Jinping, agora vamos aguardar para saber o que deverá ser reerguido nesta importante terra de prosperidade notória e de luta contínua.

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