Sociedade e poder. Por Rui Martinho

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

A convivência dos indivíduos nos grupos sociais segue padrões. A observância de tais referências, dentro de limites nem sempre rígidos, é feita por diferentes formas de controle social. A universalidade de tais restrições é observada, embora com grande variação, até entre animais que cooperam na luta pela vida. O grau de legitimidade da normatividade social varia, junto com inúmeros fatores.

A liderança é um destes aspectos variável. A clássica tipologia de liderança tradicional, carismática ou racional legal destaca (Maximiliam Karl Emil Weber, 1854 – 1920) e distingue o personalismo maior ou menor como influência social. Não existe, historicamente, sociedade sem algum tipo de controle social, seja muito limitado e suave ou abrangente e duro.

O significado do controle social pode ser entendido como opressivo em todas as suas formas. Este é o pensamento dos que sonham com a emancipação radical, na forma da dialética negativa, segundo a leitura de Michel Foucault (1926 – 1984) feita por José Guilherme Merquior (1941 – 1992).

A visão de um mal-estar na civilização, de Sigmond Schlomo Freud (1856 – 1939), tende a confirmar ou explicar os conflitos entre a normatividade própria da organização e a vontade dos integrantes dos grupos organizados. Controles mais rígidos e mais flexíveis podem se alternar, na forma de ciclos segundo a experiência histórica, assinalada por Arnold Joseph Toynbee (1889 – 1975) embora algumas formas rígidas tenham tido longa duração. O historiador britânico se referia ao movimento cíclico das civilizações, mas os fenômenos menos abrangentes guardam alguma semelhança com o todo de que fazem parte.

A ausência de sociedade sem alguma forma de poder parece indicar que a anomia e dissolução aguardam a abolição radical das diversas formas de vigilância e controle. O caminho a seguir deve ser o da escolha de alguma forma de poder minimamente necessário a uma estabilidade que não afaste a inovação e tenha o consentimento dos governados, como ressaltado por John Locke (1632 – 1704). Como reconhecer o poder legitimado pela outorga dos cidadãos? Qual o seu prazo de validade e a matéria? A legitimidade originária nasce nas urnas. Mas a legitimidade de curso decorre do desempenho no cargo.

O parlamentarismo resolve o problema da perda da legitimidade de curso com o voto de desconfiança, que é moderado pelo fato da dissolução do parlamento com a convocação de novas eleições, desencorajando o abuso da medida extrema. O presidencialismo tem o impeachment, que não tem relação com a dissolução do Congresso, que submeteria os parlamentares a um novo teste nas urnas. O parlamentarismo de fato, associado ao “judicialismo” informal leva ao desgoverno ou a ao indecoroso presidencialismo de cooptação, que desmoralizou partidos e lideranças. Agora o “judicialismo” ou tenentismo de toga desgasta o Judiciário pelos feitos dos seus titulares. Os “tripulantes” das instituições podem destruí-las.

O deserto de lideranças e partidos, ao lado do descrédito da imprensa e dos dirigentes de entidades da sociedade civil tendem a desaguar no populismo e nas soluções indesejáveis. Não devemos confundir a crítica aos dirigentes das instituições com as entidades ou organizações por eles dirigidas. Trata-se, pelo contrário, de defesa do “navio” que os tripulantes estão dirigindo mal.

Uma crise sanitária, econômica, social, política e de natureza moral exige medidas urgentes. Uma reforma política séria, uma revisão do papel do Judiciário e a atuação de certas entidades da sociedade civil precisam ser repensadas e executadas.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Horas antes da prisão, Vorcaro enviou mensagem a Moraes, que respondeu no modo visualização única

Vorcaro teve prisão decretada em 2020, mas instituições falharam e a porta se abriu para os crimes em série

Apostas bilionárias e suspeitas antecipam ataque dos EUA ao Irã

Café da Serra de Baturité recebe selo nacional de Indicação de Procedência

Freio de arrumação no governismo do Ceará: ambições e a difícil engenharia da chapa de 2026

MP dos datacenters caduca e ameaça planos no Ceará, incluindo planos do projeto de R$ 200 bi no Pecém

Camilo, a missão, o ruído e o desconforto de Elmano

TikTok e Omnia contestam laudo do MPF sobre Datacenter de R$ 200 no Pecém

Do jeito que vai, eleição presidencial vai ser decidida pelo eleitor “nem-nem”

A política de segurança, a lógica do crime e os gigolôs da violência

PPP do Esgoto no Ceará: R$ 7 bilhões para universalizar saneamento em 127 cidades

Genial/Quaest: Lula segue com desaprovação maior que aprovação e perde fôlego entre independentes

MAIS LIDAS DO DIA

TEA e planos de saúde: quando a judicialização revela falhas no modelo assistencial. Por Camilla Góes

STJ autoriza juiz a consultar de ofício dados fiscais para negar gratuidade da justiça

Indústria do Ceará recua 2,5% em janeiro e tem desempenho abaixo da média nacional

Uber lança categoria Elite com carros de luxo e serviço personalizado

Governo revisa projeção de inflação para 3,7% em 2026 após alta do petróleo

PF abre prazo de 15 dias para Eduardo Bolsonaro se defender em processo por abandono de cargo

Imposto de Renda 2026 exigirá declaração de ganhos com bets

Lula discute possibilidade de recolocar Petrobras na distribuição de combustíveis