O triste fim de Policarpo Quaresma. Por Rui Martinho

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

O romance “O triste fim de Policarpo Quaresma”, de Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 – 1922), tem traços de nacionalismo, denuncia social, incorpora em seu enredo temas históricos, inclusive com personagem de carne e osso, além de fazer uso da linguagem coloquial, do estilo havido como pré-moderno. O clientelismo, a máquina burocrática do aparato estatal, os interesses pessoais e políticos, presentes na vida pública e na sociedade são retratados do modo crítico e com ironia.

O personagem central, que empresta o nome ao título da obra, é servidor público, erudito, amante de livros e patriota. Fosse o romance ambientado em nossos dias, poderia colocar o personagem central como juiz, procurador da República, delegado ou perito da polícia Federal. A luta de Policarpo seria contra a corrupção. Mas em fins do séc. XIX o personagem queria fazer do idioma tupi a língua oficial do nosso país. Considerado louco, foi internado. Hoje poderia ser um juiz acusado de parcialidade ou procurador acusado de ser um Tomás de Torquemada (1420 – 1498). Liberto, foi morar no sítio “Sossego”. Retirou-se da vida pública.

Veio a Revolta da Armada, episódio histórico. Policarpo deixa o sossego. Apoia Floriano Vieira Peixoto (1839 – 1895), personagem real. Defende a República. Hoje o romancista talvez falasse em corrupção; ativismo judicial; insegurança jurídica causada pelas mudanças de entendimento do STF; pauta dos costumes ou grupos identitários. Lima Barreto descreve o palácio presidencial cheio de teias de aranha e outros sinais de desleixo. Atualizar o romance em comento exigiria sinais de decadência em todos os palácios de Brasília.

Policarpo deixou o retiro para ajudar Floriano, que enfrentava a Revolta da Armada e a Revolução Federalista. Teve acesso ao palácio presidencial. Mas não pode falar com o marechal presidente. Não foi ouvido. Nada obstante o dedicado servidor público apoiar a causa republicana, opondo-se aos monarquistas que aderiram e se apoderaram da Revolta da Armada, foi preso pelos apoiadores do Marechal de Ferro. Era a segunda vez que tinha a liberdade sacrificada. Estando certo ou errado, em ambas as ocasiões queria servir à pátria.

Ao lutar pela língua tupi foi considerado louco, talvez acertadamente. Perdeu temporariamente a liberdade. A acusação, porém, não maculou a sua integridade, embora lhe causasse descrédito. Hoje o romancista mencionaria a acusação de excesso de zelo ou violação de formalidades da conduta funcional, violando preciosas garantias, conduta arbitraria, não muito infamante.

Depois defendeu, não a língua tupi, aspecto puramente cultural, mas a causa republicana, que tem significado político. Incorreu na fúria dos que se sentiram ameaçados. Então, além da liberdade, perdeu a vida. Foi considerado traidor e condenado. Pena: fuzilamento. Os inimigos do interesse público aplicaram a pena capital como um aviso a todos os brasileiros para que nunca mais ousem condenar o patriciado do estamento político e burocrático. Os “mais iguais”, da fábula de Georg Orwell (Eric Arthur Blair, 1993 – 1950), “A revolução dos bichos”, são intocáveis. As divergências e conflitos de interesses dos integrantes daquilo que Milovan Djilas (1911 – 1995) denominou “nova Classe”, na obra assim denominada, se unem para salvaguardar a impunidade de todos os integrantes do estamento fielmente descrito por Raymundo Faoro na obra “Os donos do poder”. Hoje Lima Barreto daria outro título ao romance, aludindo ao triste fim da ilusão mudar o país do Macunaíma.

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