Via zap-zap, movimento coloca país de joelhos

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Por Fábio Campos, no O Povo deste domingo.
O movimento dos caminhoneiros teve o mérito de escancarar duas situações bastante desconfortáveis. Na verdade, são fatos já conhecidos, mas que acabaram se incorporando ao dia a dia do País sem que precisasse entrar na pauta dos debates públicos e, do ponto de vista da política, sequer fossem citados como motivo de preocupação.
O primeiro ponto em questão diz respeito à absurda dependência da economia brasileira em relação ao modal de transporte rodoviário. Estima-se que os caminhões representam hoje 64% de toda carga transportada no País, contra 19% das ferrovias e 11% das hidrovias. Ou seja, mais de 2/3 de tudo o que é produzido no Brasil precisa de caminhões e caminhoneiros para chegar ao consumidor final.
Caso o Ceará seja visto de maneira isolada, certamente essa dependência é ainda maior. Não há hidrovias e o sistema ferroviário do Estado foi praticamente destruído por um processo de privatização mal feito. Portanto, toda a economia do Estado passa pelas estradas e pelos caminhoneiros.
O fato é que uma greve de motoristas de caminhão fez o País se ajoelhar. É evidente que muito dos efeitos do movimento se devem às complexas circunstâncias políticas do governo de Michel Temer, que passou a ser isolado pelos seus próprios aliados. Além, é claro, de ter demonstrado baixíssima capacidade de se antecipar ao problema.
Claro ficou que o Governo Federal foi surpreendido pelos acontecimentos. Em suas extensões locais, o Poder Executivo em cada estado também demonstrou o quanto é obsoleto para lidar com esse tipo de situação e reagir diante da grave crise como a que se estabeleceu.
No Ceará, por exemplo, o Governo estadual e a Prefeitura de Fortaleza agiram como se não tivessem absolutamente nada a ver com os problemas que se acumulavam a olhos nus, chegando ao abismo de uma crise de abastecimento de grandes proporções.
No fim da tarde sexta-feira, no quarto dia de greve, o governador Camilo Santana ainda soltou uma nota insossa no Facebook com uma lista de medidas óbvias. A dimensão do problema exigia uma postura muito mais eloquente por parte do setor público. No mínimo, um gabinete de crise deveria ter sido estruturado.
Afinal, era latente o risco de, por exemplo, uma paralisia em grandes proporções do sistema de segurança por falta de combustível. Atentem que o principal ponto de ação dos grevistas focou no Porto do Mucuripe, dentro de Fortaleza. Caminhões não entravam e nem saiam. Não é aconselhável que os governantes tolerem tamanha desenvoltura de um movimento grevista.
Na forma como se estabeleceu e se organizou, o movimento dos caminhoneiros mantém alguma similaridade com as jornadas de junho de 2013. Não há lideranças clássicas, não há partidos, não há sindicalistas no comando das ações. É muito provável até que esses grupos sejam bastante rejeitados pelos grevistas.
Assim como em 2013 as mobilizações ocorreram via redes sociais, o movimento dos caminhoneiros se articulou via WhatsApp. Cada bloqueio tinha seu próprio líder. Daí a desmoralização dos que se apresentaram em Brasília como líderes. Daí a imensa dificuldade de o Governo entender os acontecimentos.
CONSUMIDOR SUSTENTA FARRAS E INEFICIÊNCIA
Escancarada a arriscada dependência do País em relação ao transporte rodoviário, o movimento chamou a atenção também para a composição do preço final dos combustíveis. De cada litro de óleo diesel, 28% são impostos. De cada litro de gasolina, 45% são impostos e taxas.
Ou seja, quase a metade do valor que pagamos por cada litro de gasolina vai para os cofres do Estado. É aí que a porquinha torce o rabo. Quando se dá conta disso, o consumidor volta seus olhos para o tipo de serviço que o setor público coloca à disposição dos cidadãos. Portanto, não faltam motivos para revolta.
A revolta não se justifica somente pelos serviços públicos ruins, mas também pela percepção de que o seu dinheiro sustenta máquinas estatais apinhadas de gente que deveria estar bem longe do serviço público. Como nunca, a máquina estatal virou o abrigo das máquinas políticas e partidárias. Basta ver o que acontece aqui.
Como escreveu o jornalista Celso Ming, “quase imperceptivelmente, os preços dos combustíveis, da energia elétrica e dos serviços urbanos se transformaram em instrumentos de extorsão de impostos do contribuinte… Por trás de tudo está o Estado ineficiente, gastador, ultra endividado, reduto do cupinchismo e do que já se sabe. Como não há o que chegue, tascam-se impostos a torto e a direito”.

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