Os meninos da gráfica rápida. Por Angela Barros Leal

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Parada na porta da gráfica rápida, no subsolo do shopping center, percebi dentro da loja um reboliço não decifrável à primeira vista. Um grupinho de meninos voejava em torno de um dos balcões, formando uma nuvem agitada de cabelos escuros, qual um furacão de pequeno porte. Cada um segurava nas mãos baldes vazios ou garrafas PET cortadas ao meio, aquelas crianças sem idade e sem nome que nós fazemos de conta não ver nas paradas do sinal de trânsito.

A outra atendente, que estava desocupada, me atendeu. Enquanto ela providenciava meu pedido o silêncio se fez. Os garotos tinham ido embora e a moça do primeiro balcão já estava sozinha, de olho na tela do computador. Qual de nós não iria até ela e perguntaria o que havia acontecido, solicitaria uma explicação para aquele inusitado vendaval dentro da sala, um bando barulhento do que mais parecia uma revoada de passarinhos, amontoados em torno dela, o que desejavam, o que tinham conseguido.

Eles eram clientes frequentes, ela me disse. Iam até lá várias vezes ao ano, em especial nos períodos festivos antecedendo Páscoa, Dia das Mães, Dia da Criança e Natal. Tinham ido justamente por conta da proximidade da época natalina e solicitado o de sempre: adesivos de papel para as latas e garrafas que portavam, em tamanho específico à necessidade de cada um, dessa vez tendo como ilustração um Papai Noel de faces coradas, legendado por um eufórico MUITO OBRIGADO E FELIZ NATAL!!!

Eram seis crianças naquele dia, aparentemente entre oito e dez anos de idade, que há algum tempo haviam descoberto a importância da comunicação, os efeitos positivos da publicidade. Algum deles, ou um adulto talvez, percebera que a propaganda continuava sendo o melhor negócio, e o conjunto de garotos decidira investir nesse setor os poucos trocados colhidos aqui e ali.

A conta cobrada pela gráfica chegara a um total de R$ 8,20 a ser dividida por seis, atrapalhada ainda mais pela necessária equidade de cálculos a partir das dimensões de cada adesivo – o tamanho para meia garrafa PET não podia ser o mesmo que aquele feito para uma lata de tinta vazia – o que justificava o vozerio infantil.

Então descubro que, além da valiosa lição sobre publicidade, os meninos aprendiam também a importância da matemática, em aulas práticas de soma, divisão e uma sonhada multiplicação, indo além da vivência em bancos escolares tão duvidosamente frequentados. De maneira similar àqueles personagens criados por lobos, citados por psicanalistas ou surgidos da imaginação de escritores, aqueles meninos eram filhos das ruas e calçadas, criados em meio aos carros, alimentados a monóxido de carbono, habituados a negativas que pretendiam reverter com o uso de um apelo propositadamente emocional.

Entravam e saiam do shopping pelo mesmo portão aberto aos carros, único acesso a eles autorizado. Transitavam nos subterrâneos, literalmente na base das estruturas, entre encanamentos, fiação, movimentação de resíduos, carga e descarga de material. Se acima deles as lojas reluziam em preparativos natalinos, dali de baixo não havia como saber.

Não me proponho a tanger as cordas de um plangente violino como trilha sonora do que conto agora. Existem eles desde que o mundo é mundo, e Victor Hugo, com seu Gavroche, no Os Miseráveis, está aí para confirmar. Também não quero elaborar filosofias ou discorrer sócio-ético-politicamente a respeito do que testemunhei. Desconheço as teorias. Não tenho acesso a políticas sociais.

Saí da gráfica e subi no elevador até à Praça de Alimentação repisando o que vira: Iniciativa. Planejamento. Criatividade. Cooperação. Parceria.  Qualidades desperdiçadas no ato humilhante de estender a mão e pedir.

Para os meninos, as latas e garrafas eram seu material de trabalho, merecendo o investimento de seus míseros ganhos. O que virão a ser em poucos anos descansa nas mãos de Deus, dos deuses, já que das mãos humanas nada resultará além do tilintar das eventuais moedas com as quais aliviamos a nossa consciência, e que deve soar para eles como o bimbalhar dos sinos de Natal.

Por enquanto, o que afirmo com certeza é ter visto um dos  meninos na saída do shopping, correndo entre os carros parados no sinal de trânsito, com o adesivo da gráfica rápida colado na lata, novinho em folha, nos agradecendo e nos desejando um FELIZ NATAL!!

 

Angela Barros Leal é jornalista e escritora

 

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