Três reis, cem dúvidas. Angela Barros Leal

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Pintura de Daniela Caburro. Foto: Divulgação

No meio da noite me vem de volta a pergunta de uma neta: como era mesmo que se chamavam os três Reis Magos. Vasculho os arcanos fichários da memória, retornando aos tempos do Catecismo, e recordo que a listagem vinha numa cantilena fácil de decorar, em uma rima esquecida: Fulano de Tal, Belchior e Baltazar.  Vejo claramente a silhueta das três figuras, recortadas em incontáveis cartões natalinos: Fulano puxando a fila, seguido pelos outros dois, mas nenhum malabarismo mental faz vir à tona o nome dele.

Não só me falta o nome, como outras dúvidas que estavam adormecidas erguem as cabeças, espicham os braços ossudos e abrem suas asas nervuradas no meio da noite. Com os olhos no teto penso que Reis, assim como candidatos preferenciais a cargos políticos, não viajam sozinhos. Que espécie de Reis seriam esses três solitários viajantes, em tão minúscula caravana, sem a companhia de nobres, de súditos e servos? Quem lhes seguraria o manto ou firmaria o estribo para a acomodação sobre o dorso ondulante dos camelos? Quem garantiria a segurança de suas preciosas coroas, na longa navegação por mares de areia? Quem caminharia adiante deles para anunciar sua imperial passagem pelas paragens do caminho?

São quatro horas da manhã, e recordo que um dos Reis era negro. Mas qual deles? Baltazar me parece o mais provável, pelo som profundo do nome, um nome de homem sério e sábio, um nome para alegrar os arautos, alongando as vogais com as mãos em concha em volta da boca. Qual o reino de Baltazar? Teria seu reinado na Etiópia? Aliás, já existiria Etiópia? Ocuparia ele um trono modesto no imenso Reino de Judá?

Qual o império de Belchior? E a quem haviam incumbido de zelar por suas Cortes enquanto cruzavam mundo, bilaquianamente, a ouvir estrelas e a segui-las sobre as corcovas das dunas? Se eram magos, qual magia praticavam? Ou não seriam magos, e sim sábios – wise men, na tradução dos norte-americanos? Que encantos e milagres produziam? Que ciências detinham? E afinal, como se chamava o terceiro Rei Mago?

Cachorros latem, um alarme de carro dispara. Sei que levavam como presentes ouro, incenso e mirra. Mas a que serviria para um recém-nascido o incenso, palavra que traz ao ar friorento da madrugada um cheiro úmido de catedrais, o eco de órgãos, de corais gregorianos ressoando em paredes de pedra? E mirra, então?

A dúvida sobre o que seria a mirra espanta de vez o sono. O valor do ouro atravessou milênios, o incenso mantém seu grau de reconhecimento, mas os poderes da mirra perderam-se de vez numa dessas esquinas do tempo.

Descubro uma das vantagens de estar aposentada. Posso levantar no meio da noite, impor as mãos sobre o teclado e invocar poderes infalíveis, sem me preocupar com as olheiras matinais. Como um oráculo de resposta sempre pronta a tela me informa que os Reis Magos são citados em um só Evangelho – o de Mateus, e sequer há certeza de que seriam de fato três.

Belchior, cujo nome tão fácil relembro, poderia ser Melchior, rei da Pérsia. Baltazar era de fato o negro, rei da Arábia. E o terceiro, aquele que me fugira da memória, chamava-se Gaspar, e seu reinado recaia sobre a Índia. Eram magos pelo conhecimento que dispunham em astrologia e astronomia, daí a obediência à trilha da estrela.

Acesso o arquivo das dádivas informativas na internet: com ouro, o precioso metal, se presenteava um Rei; o incenso era dedicado a pregadores religiosos; e a olvidada mirra – resina extraída do caule de um arbusto das regiões desérticas da África e Oriente Médio – era usada para preparar medicamentos que serviam aos vivos e para as elaboradas cerimônias de embalsamamento e mumificação dos mortos.

O dia vai nascer e as interrogações se sucedem. O que a jovem mãe Maria terá feito com os valiosos presentes? Onde os teria guardado, em tão pobre cenário de areia, palha e pelos dos animais, na periferia de uma cidade repleta de estranhos? Quanto tempo permaneceram os Reis na manjedoura? Em que língua se faziam entender entre si, e com os demais? Teriam voltado talvez a se encontrar, para trocar reminiscências da viagem? Foram eles os pioneiros do aquecimento do comércio, criando a tradição dos presentes natalinos?

E o pai, José, teria recebido os nobres com as devidas mesuras ou sem esconder a pressa de vê-los retroceder em seus caminhos, podendo assim dedicar-se à mãe, ao filho e ao divino Espírito Santo? Apenas três Reis. E uma noite de tantas dúvidas.

Angela Barros Leal é jornalista e escritora.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Fortaleza domina Enem 2025: capital ocupa as 3 primeiras posições do BR e tem 4 escolas entre as 10 melhores

Ibmec chega a Fortaleza e firma Ceará como polo nacional de educação, inovação e negócios

Pesquisa Atlasintel Piauí 2026: eleição praticamente resolvida a favor do PT

Pesquisa Focus Poder/Atlasintel explica decisão de Ciro e PSDB de manter distância de Flávio

PSD dos “Domingos” leva Comissão de Orçamento do Congresso e reforça musculatura para a vice no Ceará

Focus/Atlasintel: Lula abre larga vantagem no Ceará e reforça ativo eleitoral de Elmano para 2026

Pesquisa Focus/Atlas para o Senado Ceará: Cenários embolados com Cid favorito; sem sua candidatura, Luizianne salta

Pesquisa Focus Poder + Atlasintel: Ciro e Elmano empatam na corrida ao Governo

UFC entra no Top 15 nacional de patentes e reforça posição como polo de inovação

Governo do Ceará: Pesquisa Focus Poder/AtlasIntel será divulgada nesta segunda-feira

PIX vira vitrine global: fundador do Web Summit diz que sistema brasileiro “destrói monopólios” e inspira o mundo

Em meio à batalha judicial, Eneva e Diamante iniciam investimento de R$ 6 bi em energia e infraestrutura no Pecém

MAIS LIDAS DO DIA

BTG/Nexus: Lula e Flávio Bolsonaro empatam tecnicamente em cenário de 2º turno

Datafolha: 68% dos brasileiros não lembram de deputados e 75% não sabem citar senadores

Uece lidera Norte e Nordeste em ranking internacional de sustentabilidade e educação

Conar manda suspender anúncios de bets na CazéTV durante a Copa após denúncias de publicidade irregular

Onda de calor na Europa bate recordes e expõe crise climática

STJ decide que e-mail sem assinatura não vale como testamento

PSD prepara anúncio de Kassab como vice de Caiado

Brasil anuncia aporte de US$ 100 milhões por ano ao fundo de desenvolvimento do Mercosul

STJ define regras para atuação da PM em manifestações