Sobre arautos e divindades. Por Angela Barros Leal

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Algumas pessoas saem de casa, dão uma volta ao mundo, enfrentam sete mares e outro tanto de continentes, percorrem caminhos desconhecidos, visitam o que há para ser visitado, conhecem novas culturas e novas gentes, porém no retorno, quando perguntadas sobre as viagens, a resposta é: Foi boa.

E caem no silêncio. Assim mesmo. Foi boa, como se as experiências se dividissem em duas únicas categorias, as boas e as más, sem detalhes ou gradações, sem as minúcias, os detalhes, diálogos e acontecimentos que dão colorido aos passeios, às aventuras. Presentes na primeira fila à festa de entrega do Oscar? Foi bom. Testemunharam a interminável erupção do vulcão nas Ilhas Canárias? Foi ruim. Estiveram na proa do Titanic? Foi ruim. Avistaram o nascer de uma nova galáxia? Foi bom.

São em geral pessoas lacônicas por natureza. Em grande maioria pertencem ao sexo masculino, muito embora tal fato se dê também entre mulheres. Costumam ser pessoas desconfiadas até dos escassos amigos. Demonstram um temperamento reservado. São de trato direto, objetivo. Viram muita coisa nos caminhos e viagens, é fato, mas não se empenham em compartilhar verbalmente.

Os que usufruem do silêncio, os que preferem passar a vida sem repartir pensamentos, esses temem, quem sabe, não ser dotados de um léxico fiel, de uma riqueza vocabular que os permita transmitir a completa tradução dos deslumbramentos e descobertas vivenciadas. Em pleno juízo, evitam transformar em palavras o que testemunharam ou sentiram.

Tudo aquilo que foi posto à frente deles compõe agora sua cosmografia particular, o ensaio de sua orquestra de metais, com partituras para flauta e violino, o palco interno de seu teatro, fechadas as cortinas. É algo a ser lembrado nos momentos de vigília. Relatar seria como contar um sonho, do qual se sente a inteireza, se apalpa o formato ao acordar, mas que se desagrega no instante mesmo em que é tocado, desfazendo-se em nada.

Descreem do que enxergam abertamente, sem precisar partilhar descobertas com mais ninguém. O livro que escrevem traz folhas opacas e linhas ocultas, em hieróglifos jamais traduzidos. Quando falam, é em parábolas. Olhados com respeito, eles silenciam. Impõem grandiosidade e reverência. Não nos deixam mergulhar no mistério e levam consigo seus segredos.

Por outro lado, existem aqueles que saem de casa para comprar pão na padaria da esquina e é como se um mundo de eventos se abrisse diante delas, de pronto incorporados ao relatório de fatos a contar na volta. Veem cães derrubarem e arrastarem seus tutores. Reveem conhecidos há muito desaparecidos. Carros se acidentam à sua frente. Passeatas e manifestações obstruem suas caminhadas. Placas tectônicas se afastam e se movimentam à vista de seus olhos.

Aposto que essas pessoas nasceram extrovertidas. Deram o primeiro sorriso às enfermeiras na maternidade. Cresceram e multiplicaram-se dividindo. Confiam em estranhos e estabelecem a liga entre desconhecidos. Retornam da padaria com o pão e um sem fim de novidades. Às vezes até mesmo sem o pão – porém jamais sem uma minuciosa narrativa do percurso.

Quando viajam, trazem bagagens de informações e nenhuma delas cabe em adjetivos. Necessitam expandir-se em fotos, vídeos, gestos, em alongadas conversas nas quais, com fé evangelizadora, tentam oferecer seus próprios olhos para que olhos irmãos enxerguem também o que foi visto por elas. A vida delas é como um livro aberto, escrito em letras grandes.

Vocês não são assim tão binários, tão cartesianamente divididos entre zero e um, sopra meu crítico interior, um senhor quase sempre desumano, o personal critic que reside sobre meu ombro desde que me entendo como gente. Vocês têm um pouco de cada, são tudo o que vai de zero a um, ele resmunga, como se ao menos isso eu não soubesse.

Entre o zero e o um estão vocês, enfatiza ele, zombando de tudo que foi dito acima, lembrando a infinita gradação das nossas formas de ser e de parecer. E eu, que como tantos de nós, alterno dias de esfinge com momentos de língua inquieta, conforme a lua ou o dia, conforme a pessoa, o local e a hora, concordo e aceito esse nosso dom tão humano de carregar, em embalagem única, a verborragia do arauto e a mudez da divindade.

 

Angela Barros Leal é jornalista e escritora

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