Crises, guerra e a economia. Por Rui Martinho

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Crises misturam impasses e oportunidades. Guerras têm forte correlação com crises. As guerras mundiais e a grande depressão iniciada em 1929 impactaram fortemente na nossa economia. Falências, desemprego foram impasses que criaram a oportunidade de industrialização por substituição de importações. Faltou divisa para importação. Fomos obrigados a produzir. Reserva de mercado, isenções fiscais, créditos subsidiados e barreiras alfandegárias foram o caminho seguido por quase todo o século XX, com destaque para os governos de Getúlio D. Vargas e do consulado militar. Investimentos nas áreas de energia e transportes completaram o crescimento.

Crescíamos como os asiáticos de hoje. O preço por tal crescimento foi altíssimo. Desigualdade regional e social, inflação e urbanização descontrolada são alguns dos problemas do modelo de economia em marcha forçada sob proteção do Estado. A qualidade inferior e o preço elevado dos nossos produtos é o que tínhamos. A falta de competição desestimulou o aperfeiçoamento da indústria. O maior ícone do modelo descrito, o presidente Vargas, ficou conhecido como o pai dos pobres e a mães dos ricos, porque tratava os primeiros com paternalismo e cumulava de riquezas os últimos. Este foi o preço da nossa industrialização. A revolução tecnológica inviabilizou o modelo.

A nossa economia ainda é muito fechada. O pouco que abrimos foi o suficiente para a concorrência predatória dos chineses e outros asiáticos provocarem a desindustrialização do nosso país. Isso trouxe produtos de melhor qualidade e preços mais suportáveis e inflação civilizada. Trouxe também desemprego e dependência de fornecedores. A indústria que ainda temos depende inteiramente de fornecedores de componentes. As guerras mundiais nos privaram de certos bens por falta de divisas para importa-los, porque as nossas exportações caíram, situação agravada por falta de fornecedores em razão da guerra e pela queda das exportações. A grande depressão da década de trinta, novamente com falta de divisas, limitava as nossas importações. A crise abalou a economia dos mercados para os quais exportávamos, sem divisas substituímos importações.

Hoje o mundo está mais integrado. Vantagens comparativas das trocas trouxeram benefícios. Ficamos mais dependentes. A guerra na Ucrânia pode nos deixar sem fornecedor de fertilizantes e sem comprador da nossa carne. Crises políticas e militares podem prejudicar as nossas transações bancárias nos deixando sem mercado. As guerras econômicas entre terceiros podem prejudicar o nosso comércio. É tempo de repensarmos a relação comparada entre custo e benefício da abertura da economia e do protecionismo. “Tudo tem o seu tempo determinado, e há um tempo para todo o propósito debaixo sob o céu” (Eclesiastes 3; 1). A substituição de importações é um campo aberto no mercado interno e pode criar uma base industrial para competir no exterior. Há escassez de semicondutores, componentes dos setores eletroeletrônico, metal mecânico, químico farmacêutico e tantos outros.

Os inconvenientes da dependência foram evidenciados com as demandas subitamente aceleradas no caso da pandemia e por embargos impostos como sanção econômica. Não é preciso que a guerra bata à nossa porta. Uma conflagração distante pode nos atingir. Belarus sofreu embargos e temos escassez de fertilizantes. Declarações sobre a Amazônia como patrimônio da humanidade, tutela imposta em nome da proteção ambiental, de indígenas e dos direitos humanos têm odor de sanções econômicas que podem ser muito fortes.

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