Igualdade de gênero nas instituições: um caminho a trilhar. Por Raquel Cavalcanti, Desirée Ferreira e Isadora Mourão

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Isadora Mourão Gurgel Peixoto Alves. Advogada e pesquisadora do Grupo Ágora (UFC). Foto: Divulgação

O contexto de celebração do Dia Internacional da Mulher é propício ao fortalecimento do debate sobre a luta pela afirmação da igualdade dos direitos e da dignidade das mulheres. O cenário desenhado nesta data, a despeito dos avanços conquistados nos últimos anos, como a promulgação de uma lei de combate à violência política contra a mulher (Lei nº 14.192, de 4 de agosto de 2021), ainda revela graves abismos para o funcionamento igualitário das instituições brasileiras.

Não se fala apenas em instâncias de representação compostas por integrantes submetidos ao voto popular em eleições periódicas. Na verdade, a luta pela igualdade precisa ser realizada com o encadeamento dos diversos espaços de poder que dão corpo à democracia e, conjuntamente, consolidam a formação de uma cultura de pluralidade e inclusão.

Pensado dessa forma, o caminho a trilhar para a efetiva participação das mulheres na vida pública se revela ainda mais longo. No contexto político-eleitoral, há décadas se busca construir meios de redução do grave cenário de sub-representação feminina nos Parlamentos (o Brasil ocupa o 141º lugar no ranking mundial da participação feminina no Parlamento), por exemplo com a desafiante efetivação de uma política de cotas, mas ainda não se vislumbra esforço semelhante em outros espaços institucionais. Desse modo, o reduzido número de mulheres em cargos do Executivo e Legislativo, também é reproduzido no Judiciário sem que, no entanto, haja muitas reflexões sobre as implicações desse fato.

Desirée Cavalcante Ferreira é mestra e doutoranda em Direito pela Universidade Federal do Ceará. Professora de Direito Constitucional. Advogada. Integrante do Observatório de Violência Política contra a Mulher. Foto: Divulgação

Nem mesmo o quinto constitucional, a existência de mais mulheres advogadas e estudantes nas universidades, tem sido capaz de acelerar a presença feminina nas Cortes de Justiça, como revela o Diagnóstico da Participação Feminina no Judiciário[1] realizado pelo CNJ em 2019. Segundo os dados, as magistradas representam apenas 38,8% dos postos em atividade em todo o Poder Judiciário, enquanto, nos Tribunais Superiores, em 10 anos, o número reduziu de 23,6% para 19,6%.

A baixa representatividade nos Poderes da República reverbera em outros espaços, impactando a vida laboral, econômica, cultural e social das mulheres. Por isso, defender a ampliação do espaço político é não apenas tratar de poderes estatais, mas de toda a estrutura necessária para que a voz das mulheres seja projetada e ouvida.

Raquel Cavalcanti Ramos Machado é advogada, mestre em Direito pela UFC, doutora em Direito pela USP, professora de Direito Eleitoral e Direito Administrativo da UFC e Visiting Research Scholar da Wirtschaftsuniversität, Viena, Áustria. Foto: Divulgação

Enquanto não houver ocupação feminina dos espaços institucionais por meio dos quais é construído o debate público, as mulheres estarão submetidas à perpetuação de estereótipos de gênero e de violência de diversas naturezas, que tornam inócuas, inclusive, as medidas legislativas que visam garantir maior participação parlamentar.

A realidade é modificada nas entrelinhas do tecido social, não apenas na camada mais superficial. Por isso, é preciso que a igualdade de gênero penetre todas as instituições brasileiras para que, enfim, possamos ter um cenário mais positivo à proteção dos direitos das mulheres.

Isso é o que esperamos celebrar em breve.

 

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Horas antes da prisão, Vorcaro enviou mensagem a Moraes, que respondeu no modo visualização única

Vorcaro teve prisão decretada em 2020, mas instituições falharam e a porta se abriu para os crimes em série

Apostas bilionárias e suspeitas antecipam ataque dos EUA ao Irã

Café da Serra de Baturité recebe selo nacional de Indicação de Procedência

Freio de arrumação no governismo do Ceará: ambições e a difícil engenharia da chapa de 2026

MP dos datacenters caduca e ameaça planos no Ceará, incluindo planos do projeto de R$ 200 bi no Pecém

Camilo, a missão, o ruído e o desconforto de Elmano

TikTok e Omnia contestam laudo do MPF sobre Datacenter de R$ 200 no Pecém

Do jeito que vai, eleição presidencial vai ser decidida pelo eleitor “nem-nem”

A política de segurança, a lógica do crime e os gigolôs da violência

PPP do Esgoto no Ceará: R$ 7 bilhões para universalizar saneamento em 127 cidades

Genial/Quaest: Lula segue com desaprovação maior que aprovação e perde fôlego entre independentes

MAIS LIDAS DO DIA

Países da AIE aprovam liberação recorde de 400 milhões de barris de petróleo em meio à guerra no Oriente Médio

Indústria de alimentos e bebidas fatura R$ 1,39 trilhão e representa 10,8% do PIB

Banco Central inicia retirada gradual das primeiras cédulas do real

Presidente da CPMI do INSS pede revisão de decisões do STF sobre depoimentos

Fortaleza registra maior inflação do país em fevereiro, aponta IBGE

Governo anuncia pacote para reduzir preço do diesel e conter impacto do petróleo